Confira a nova coluna do doutor em Comunicação e Linguagens, Moisés Béio Cardoso
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A tecnologia de reconhecimento facial já faz parte da rotina em aeroportos, bancos, condomínios e sistemas de segurança pública. Agora, ela começa a entrar também nas escolas.
Em Blumenau, o Projeto de Lei 9460/2026 aprovado na Câmara de Vereadores abriu caminho para o uso desse tipo de sistema na rede pública municipal. Ele prevê o uso de tecnologias de inteligência artificial para controlar a entrada e saída de estudantes, automatizar o registro de frequência e reforçar a segurança nas escolas.
Mas, ele traz para o debate uma questão que vai muito além da tecnologia. A proposta é apresentada com argumentos que fazem sentido à primeira vista. Controle de entrada e saída, mais segurança, automatização de processos e maior tranquilidade para as famílias.
Na prática, o rosto dos estudantes passa a funcionar como uma espécie de senha digital para acessar o ambiente escolar. O problema é que, quando se fala em reconhecimento facial dentro das escolas, o debate não pode ficar restrito apenas à praticidade.
Fique com a gente e vamos desenrolar esse tema hoje, tenha uma boa leitura!
O rosto virou dado. E isso muda tudo.
Muita gente ainda enxerga o reconhecimento facial apenas como uma câmera identificando pessoas. Mas, juridicamente e tecnologicamente, a questão é bem mais profunda.
O rosto passou a ser tratado como dado biométrico. E, segundo a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, dados biométricos são considerados dados sensíveis, ou seja, informações que exigem proteção reforçada.
Quando isso envolve crianças e adolescentes, o cuidado precisa ser ainda maior. Existe uma diferença importante aqui. Se uma senha vaza, você troca a senha. Mas ninguém consegue trocar o próprio rosto.
A partir do momento em que uma escola cria um banco biométrico de menores de idade, ela passa a ter uma responsabilidade enorme sobre essas informações. Isso exige finalidade clara, consentimento, transparência, proteção adequada desses dados e limitação de acesso.
Na prática, estamos falando da criação de um banco de dados biométricos de crianças e adolescentes. E isso naturalmente levanta questionamentos importantes sobre segurança, armazenamento e controle dessas informações.
O grande problema: quem protege esses dados?
Essa talvez seja a discussão mais importante de todas. Quando uma escola digitaliza o rosto de um aluno, ela cria um ativo extremamente valioso.
Dados biométricos têm alto valor justamente porque são únicos e permanentes. Diferente de uma senha, não podem ser alterados depois de um vazamento.
E o Brasil já convive com um histórico frequente de vazamentos de dados, golpes digitais e ataques hackers. Nesse cenário, surgem perguntas inevitáveis.
Onde esses dados ficarão armazenados? Quem terá acesso? Existe criptografia? O sistema será administrado pela prefeitura ou por empresas terceirizadas? Por quanto tempo essas informações ficarão guardadas?
O projeto atual é muito vago, nem sempre essas respostas aparecem com clareza no debate público.
E isso importa porque segurança digital não depende apenas da existência da tecnologia. Depende de governança, fiscalização, atualização constante e protocolos rigorosos de proteção.
Blumenau sofre atualmente com uma série de problemas na administração pública: fraude no contrato das merendas escolares, superfaturamento nos contratos de segurança nas escolas, e por aí vai. Será que no futuro também veremos desdobramentos negativos sobre a implementação desse sistema?
O reconhecimento facial não é neutro
Outro ponto que costuma passar despercebido é que sistemas de reconhecimento facial não funcionam de forma perfeita e igual para todas as pessoas.
Essas tecnologias são treinadas a partir de grandes bancos de imagens. E quando esses bancos são desbalanceados, o sistema tende a apresentar mais falhas com determinados grupos.
Estudos internacionais já mostraram taxas maiores de erro com pessoas negras, mulheres, crianças e idosos. Isso acontece porque a inteligência artificial “aprende” melhor os padrões mais presentes nos bancos de treinamento.
O problema é que, no ambiente escolar, um erro aparentemente pequeno pode gerar situações delicadas. Um aluno pode ser barrado na entrada, exposto diante dos colegas ou constrangido por uma falha do sistema.
A tecnologia pode parecer neutra, mas seus impactos não são distribuídos igualmente.
Escola não é aeroporto nem presídio
Existe ainda uma reflexão social importante que vai além da eficiência tecnológica. Que tipo de ambiente estamos construindo dentro das escolas?
O reconhecimento facial faz parte de uma lógica de vigilância permanente. E quando esse monitoramento passa a ser naturalizado desde a infância, cria-se um novo padrão de convivência social.
A escola historicamente é um espaço de formação, convivência e construção de confiança. Quando tecnologias de vigilância entram nesse ambiente, surge uma discussão legítima sobre os impactos psicológicos e culturais disso no longo prazo.
Crianças estão aprendendo desde cedo que precisam ser constantemente monitoradas? Estamos normalizando a ideia de que todo deslocamento precisa ser rastreado e registrado?
Esse debate não é simples. Mas ele precisa existir.
Tecnologia ajuda, mas não resolve tudo
Também é importante evitar uma visão simplista de que tecnologia, sozinha, resolve problemas estruturais.
O reconhecimento facial pode ajudar em processos de controle e organização. Mas segurança escolar envolve muitos outros fatores, como estrutura, equipes preparadas, protocolos humanos e acompanhamento constante.
Além disso, sempre existe a possibilidade de falhas técnicas. E quando isso acontece, surge outra pergunta importante: quem responde pelos erros do sistema?
Tecnologia não elimina responsabilidade humana.
O debate não é ser contra tecnologia
Discutir reconhecimento facial nas escolas não significa ser contra a inovação.
A tecnologia pode trazer benefícios reais quando usada com critérios claros, transparência e proteção adequada. O problema começa quando ferramentas extremamente invasivas passam a ser adotadas sem um debate amplo sobre consequências, riscos e limites.
O caso discutido em Blumenau ajuda justamente a trazer essa conversa para mais perto da população. Porque o tema deixou de ser algo distante, ligado apenas a grandes centros ou aeroportos, e passou a entrar diretamente no cotidiano escolar.
E talvez essa seja a pergunta mais importante de todas: antes de transformar o rosto de crianças em dado digital, estamos realmente preparados para proteger essas informações?
Fechamos o artigo da semana com essa questão e nos vemos semana que vem, valeu!
Entenda mais sobre o assunto assistindo ao vídeo abaixo:
Saiba mais sobre Moisés Béio Cardoso

“Sempre fui apaixonado pelas temáticas que envolviam a comunicação: vídeos, fotos, revistas, e eventos.”, diz Moisés Béio Cardoso, doutor em comunicação e linguagens. Ele nasceu em Blumenau no ano de 1977 e se destacou na área de comunicação e tecnologia.
Atualmente, ele é consultor de comunicação digital e palestrante. Além disso, atua como investidor e Trader na B3.
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