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PortaBnu / El Niño / “É preciso abandonar a expectativa de que tudo voltará a ser como antes.”

“É preciso abandonar a expectativa de que tudo voltará a ser como antes.”

Prof. Marcelo Dutra, que ganhou projeção nacional após alertar sobre a tragédia de 2024 no Rio Grande do Sul, fala com o Portal Bnu sobre Super El Niño, políticas públicas eficientes e o que podemos fazer para lidar com o futuro que já chegou

Dois anos antes das enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, um alerta feito pelo Prof. Marcelo Dutra da Silva, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), passou quase despercebido. Em uma audiência pública realizada em 2022, na cidade de Pelotas, o pesquisador defendeu que o estado enfrentaria eventos extremos cada vez mais intensos e que cidades inteiras precisam repensar sua relação com rios, encostas e áreas vulneráveis.

Após a maior tragédia climática da história gaúcha, suas declarações voltaram a circular em todo o país. Especialista em planejamento territorial, mudanças ambientais e adaptação climática, Dutra se tornou uma das vozes mais ouvidas no debate sobre os impactos das mudanças climáticas no Sul do Brasil.

Em entrevista ao Portal Bnu, ele analisa os riscos associados a um possível Super El Niño, os desafios enfrentados pelo Vale do Itajaí e as mudanças que considera inevitáveis para as próximas décadas.

Portal Bnu – O professor acredita que o Sul do Brasil já entrou definitivamente em um novo padrão climático ou ainda estamos vivendo uma transição?

Prof. Marcelo Dutra – Acredito que estamos vivendo um período de transição climática, mas uma transição que já aponta para um novo padrão. O clima sempre apresentou variabilidade natural, porém o que observamos atualmente é uma mudança mais profunda, impulsionada pelo aquecimento global. Estamos saindo de uma condição de relativo equilíbrio e estabilidade climática, que caracterizou grande parte do século XX, para um novo normal ainda em consolidação.

Nesse processo, é esperado que ocorram oscilações mais intensas e frequentes, manifestadas na forma de eventos extremos, como secas prolongadas, ondas de calor, chuvas intensas e enchentes. Esses episódios não são desvios temporários da normalidade; eles fazem parte da dinâmica de ajuste para um novo estado climático.

No Sul do Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, já observamos sinais claros dessa mudança. No entanto, ainda estamos em uma fase de transição, na qual os extremos tendem a se alternar e, em muitos casos, a se intensificar. A questão central não é mais discutir se o clima está mudando, mas compreender como essa mudança está se manifestando regionalmente e como a sociedade pode se adaptar.

Portanto, o desafio daqui para frente será desenvolver estratégias de adaptação em diferentes setores — planejamento urbano, agricultura, gestão dos recursos hídricos, infraestrutura e defesa civil — porque a tendência é que a variabilidade e a ocorrência de eventos extremos continuem fazendo parte da nossa realidade nas próximas décadas.

Portal Bnu – O Vale do Itajaí foi construído em torno do rio. Essas regiões tendem a sofrer as piores consequências da crise climática?

Prof. Marcelo Dutra – O Vale do Itajaí possui características geográficas que o tornam naturalmente mais vulnerável aos eventos hidrológicos extremos. Trata-se de uma região cuja ocupação histórica ocorreu ao longo dos rios e em áreas de vale, muitas delas constituídas por terrenos baixos, planos e sujeitos a inundações periódicas. Ao mesmo tempo, é cercada por encostas íngremes que podem se tornar instáveis durante episódios de chuva intensa.

Por essa razão, regiões como o Vale do Itajaí tendem a sofrer impactos significativos em um cenário de mudanças climáticas.

É importante compreender que existem diferentes tipos de ameaça. Nas áreas mais baixas, o principal problema costuma ser a invasão gradual das águas durante as cheias. Já nos terrenos encaixados, próximos às encostas e aos cursos d’água de menor porte, o perigo está associado à velocidade da água e à força destrutiva das enxurradas, muitas vezes acompanhadas de deslizamentos de terra e transporte de sedimentos.

Por isso, a discussão não deve se limitar à resposta aos desastres, mas avançar para estratégias de adaptação, revisão dos planos diretores, controle da ocupação de áreas de risco e fortalecimento da resiliência das cidades.

O Vale do Itajaí é um exemplo muito claro de como a vulnerabilidade resulta da combinação entre características naturais do território e a forma como ele foi ocupado ao longo do tempo. Em um contexto de transição climática, essa combinação exige ainda mais atenção do planejamento urbano e da gestão do risco.

Portal Bnu – Santa Catarina ainda evita discutir mudanças mais profundas de adaptação climática?

Prof. Marcelo Dutra – Eu diria que Santa Catarina está em uma posição relativamente mais avançada do que muitos estados brasileiros no reconhecimento do problema. A própria decisão de decretar situação de emergência diante da perspectiva de um Super El Niño demonstra que existe uma preocupação institucional e uma percepção dos riscos associados aos eventos climáticos extremos. Isso é um aspecto positivo e revela uma capacidade de resposta que nem sempre encontramos em outras regiões do país.

No entanto, quando analisamos as medidas estruturantes de longo prazo, ainda existe uma lacuna importante. Assim como ocorre em grande parte do Brasil, o debate sobre adaptação climática nem sempre tem sido incorporado de forma efetiva aos instrumentos de planejamento territorial e urbano.

O desafio não está apenas na gestão da emergência, mas principalmente na construção de resiliência. Isso significa revisar planos diretores, atualizar zoneamentos urbanos, restringir ocupações em áreas de risco, fortalecer a infraestrutura de drenagem, ampliar sistemas de monitoramento e incorporar cenários climáticos futuros ao planejamento municipal e regional.

Portanto, não diria que Santa Catarina evita completamente essa discussão. O que ainda falta é transformar essa percepção de risco em mudanças mais profundas e permanentes nos instrumentos de planejamento e ordenamento territorial. Afinal, estamos diante de uma nova realidade climática, e continuar planejando cidades com base nas condições do passado significa ampliar as vulnerabilidades do futuro.

A cidade de Canoas/RS nas chuvas de 2024. (Reprodução/G1/Portal Bnu)

Portal Bnu – Obras tradicionais de proteção, como barragens e contenções, perderam eficiência?

Prof. Marcelo Dutra – Não necessariamente. O problema é que muitas dessas estruturas foram projetadas para um clima que já não existe mais.

Elas continuam sendo importantes instrumentos de redução de risco. O desafio é reconhecer que os parâmetros de engenharia precisam ser atualizados. O clima mudou e, consequentemente, os critérios de segurança e resistência também precisam mudar.

A infraestrutura do futuro deverá ser concebida para um cenário de maior variabilidade climática, com chuvas mais intensas, ventos mais fortes e eventos extremos mais frequentes. Isso vale tanto para novas obras quanto para a reavaliação e adaptação das estruturas já existentes.

Em outras palavras, não basta reconstruir o que foi destruído exatamente da mesma forma que existia antes. Precisamos reconstruir melhor e com maior capacidade de resposta aos desafios climáticos que já estão presentes.

Portal Bnu –  Existem áreas urbanas do Sul do Brasil que precisarão ser desocupadas nas próximas décadas?

Prof. Marcelo Dutra – Essa é uma discussão difícil, mas que precisará ser enfrentada com cada vez mais seriedade. Nem todas as áreas urbanas do Sul do Brasil precisarão ser desocupadas, mas existem locais onde os níveis de risco podem se tornar tão elevados que a permanência da ocupação deixará de ser a alternativa mais segura, econômica e socialmente sustentável.

Por isso, continuo defendendo que algumas cidades e regiões devem considerar, dentro de suas estratégias de adaptação e resiliência, a possibilidade de desedificar áreas de alto risco, reconstruir em locais mais seguros ou direcionar a expansão urbana para zonas menos expostas aos eventos climáticos extremos. Essa abordagem já vem sendo discutida em diversas partes do mundo sob o conceito de recuo planejado ou realocação estratégica.

É preciso reconhecer que determinados territórios apresentam vulnerabilidades estruturais que tendem a se agravar em um contexto de mudança climática. Em alguns casos, a melhor solução pode ser reforçar a proteção existente. Em outros, será necessário restringir novas ocupações. E haverá situações em que a transferência gradual de pessoas, equipamentos públicos e atividades econômicas para áreas mais seguras será a alternativa mais racional.

A adaptação climática exige que avaliemos não apenas como proteger os lugares onde estamos, mas também onde será mais seguro viver, investir e construir no futuro.

Rio do Sul, 2024. (Foto: Reprodução/Anderson CoelhoAFP/Portal Bnu)

Portal Bnu – O que seria hoje uma política pública responsável de adaptação climática?

Prof. Marcelo Dutra – Uma política pública realmente séria de adaptação climática é aquela que compreende que não existe solução simples para um problema complexo.

Isso significa investir em planejamento, atualização dos instrumentos de gestão territorial, produção de conhecimento, monitoramento, sistemas de alerta, proteção ambiental, habitação, infraestrutura e defesa civil. Também significa integrar diferentes escalas de governo e diferentes setores da sociedade em torno de uma estratégia comum de redução de riscos.

Ao mesmo tempo, adaptação climática exige investimento. Não existe adaptação sem recursos financeiros. Bons diagnósticos precisam ser acompanhados de bons planos, e bons planos precisam resultar em intervenções concretas. Isso inclui desde a modernização dos sistemas de drenagem urbana até obras de proteção, contenção, reservação de água, recuperação de ecossistemas, reforço de infraestrutura crítica e, em alguns casos, a própria reorganização da ocupação do território.

Uma política séria de adaptação também não pode ser apenas reativa. Em síntese, adaptar-se às mudanças climáticas significa planejar melhor, investir mais e construir territórios capazes de enfrentar um clima que já não é mais o mesmo do passado.

Portal Bnu – O que cidades mais preparadas para eventos extremos estão fazendo que ainda discutimos pouco no Brasil?

Prof. Marcelo Dutra – As cidades que hoje são referências em adaptação climática compreenderam uma questão fundamental: é mais eficiente e menos custoso investir na prevenção do que concentrar esforços apenas na resposta aos desastres. Esse é talvez o principal aprendizado que ainda discutimos pouco no Brasil.

Em muitos países, a adaptação climática já foi incorporada ao planejamento urbano, à engenharia, à gestão territorial e aos investimentos públicos. Essas cidades trabalham com mapeamentos detalhados de risco, atualizam constantemente seus planos de adaptação, restringem ocupações em áreas vulneráveis, revisam padrões construtivos e direcionam recursos para tornar a infraestrutura mais resiliente aos eventos extremos.

Outro aspecto importante é que elas passaram a planejar para os cenários climáticos futuros, e não apenas para as condições observadas no passado. Isso significa projetar sistemas de drenagem, pontes, rodovias, habitações e equipamentos públicos considerando que as chuvas, os ventos e outros eventos extremos podem ser mais intensos do que aqueles registrados historicamente.

Também existe uma maior disposição para discutir medidas difíceis, como a realocação de ocupações em áreas de risco recorrente, a criação de zonas de amortecimento para cheias e a recuperação de áreas naturais que ajudam a reduzir impactos climáticos.

No Brasil, ainda avançamos mais rapidamente na estrutura de socorro e resposta do que na prevenção. Temos aperfeiçoado sistemas de alerta, defesa civil e atendimento às emergências, o que é importante. Mas continuamos investindo relativamente pouco na redução das vulnerabilidades que transformam eventos naturais em desastres.

Sanya, na China, uma “cidade-esponja”: soluções naturais que absorvem, armazenam e reutilizam a água das chuvas. Blumenau aposta nos parques alagáveis, como o Parque das Itoupavas. (Reprodução/Redes Sociais/PortalBnu)

Portal Bnu – A discussão climática ainda aborda pouco a dimensão econômica do problema?

Prof. Marcelo Dutra – Sim. Muitas vezes tratamos os desastres apenas sob a ótica ambiental ou social. Mas cada enchente, estiagem ou tempestade também representa perda de riqueza, destruição de infraestrutura e redução da capacidade produtiva.

Em certo sentido, a cada novo evento extremo ficamos um pouco mais pobres. Recursos que poderiam estar sendo destinados à educação, saúde, inovação ou desenvolvimento econômico acabam sendo direcionados para reparar danos que poderiam ter sido reduzidos por meio de planejamento e adaptação.

Por isso, considero muito válido incorporar a dimensão econômica ao debate climático. Não para substituir as preocupações ambientais e sociais, mas para complementá-las. Quando demonstramos os custos da inação e os benefícios econômicos da prevenção, da adaptação e da redução de vulnerabilidades, o tema passa a dialogar também com gestores públicos, empresários, investidores e setores da sociedade que nem sempre se mobilizam apenas pelos argumentos ambientais.

As experiências internacionais mostram que investir em adaptação geralmente custa menos do que reconstruir repetidamente após cada desastre. Portanto, a questão climática não é apenas uma pauta ambiental. É também uma pauta econômica, fiscal e de desenvolvimento. Quanto mais demorarmos para compreender isso, maior tende a ser a conta que a sociedade terá de pagar nas próximas décadas.

Portal Bnu – O que a tragédia de 2024 ensinou para a ciência e para o país?

Prof. Marcelo Dutra –  A tragédia de 2024 foi, antes de tudo, uma enorme perda humana, social e econômica. Mas também representou uma oportunidade de aprendizado sem precedentes para a ciência, para os gestores públicos e para a sociedade. Eventos dessa magnitude permitem compreender melhor os limites da infraestrutura existente, identificar vulnerabilidades territoriais e aperfeiçoar modelos de monitoramento, previsão e gestão de riscos.

A grande questão é saber o quanto seremos capazes de aprender com essa experiência. Tenho a impressão de que ainda vamos aproveitar pouco de tudo o que foi vivido.

A tragédia também revelou uma característica preocupante do país: ainda existe uma forte cultura da espera de que o evento não volte a acontecer. Muitas pessoas continuam torcendo para que tenha sido um episódio excepcional. No entanto, a ciência aponta justamente na direção contrária.

Portal Bnu – O professor é otimista ou pessimista para os próximos 20 anos?

Prof. Marcelo Dutra – Eu me considero um otimista, mas um otimista baseado na realidade dos fatos e no conhecimento científico. Não acredito que os próximos 20 anos serão fáceis. Pelo contrário. Tudo indica que continuaremos enfrentando eventos climáticos extremos.

Mas sou otimista quanto à nossa capacidade de construir uma sociedade mais resiliente e mais preparada para o novo normal climático que está se consolidando. Não sou ingênuo a ponto de acreditar que isso acontecerá automaticamente. Quanto mais demorarmos para agir, maiores serão os custos econômicos, sociais e humanos dessa transição.

Os próximos 20 anos serão decisivos. Se conseguirmos transformar o conhecimento que já temos em planejamento, investimento e ação concreta, poderemos reduzir vulnerabilidades e conviver de forma mais segura com as novas condições climáticas. Será um caminho longo e exigente, mas acredito que temos condições de chegar lá.

22 anos depois, a barragem de José Boiteux está em processo de reforma. (Foto: Reprodução/SECOM/Portal Bnu)

Portal Bnu –  Qual é hoje o conselho mais honesto que a ciência pode dar aos catarinenses?

Prof. Marcelo Dutra – Talvez o conselho mais importante seja abandonar a expectativa de que tudo voltará a ser como antes. O clima está mudando e continuará mudando nas próximas décadas. A pergunta central já não é mais se haverá novos eventos extremos, mas o quanto estaremos preparados quando eles acontecerem.

Ao mesmo tempo, a ciência também diria para não perdermos a confiança na nossa capacidade de resposta. Temos conhecimento, tecnologia e experiência acumulada para construir cidades mais resilientes e sociedades mais seguras. O desafio não é saber o que precisa ser feito. O desafio é transformar esse conhecimento em ação antes que o próximo grande evento nos encontre novamente despreparados.

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