A operação “Efeito Colateral”, que cumpriu mandados em Gaspar, revelou novos detalhes sobre o esquema de atestados médicos falsos usados para beneficiar presos do Complexo Penitenciário de Itajaí. Segundo o GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas), o grupo atuava de forma organizada, com divisão de funções e cobrança pelos documentos fraudulentos.
As investigações apontam que uma advogada articulava os pedidos judiciais, enquanto um médico emitia os atestados com diagnósticos falsos, e a secretaria do médico fazia a intermediação, facilitando contatos e recebendo valores.
De acordo com os investigadores, a cobrança pelos laudos tinham valores que variavam de cerca de R$ 300 a até R$ 4 mil. Em alguns casos, também há indícios de pagamentos por meio de bens, como terrenos.
Conversas obtidas durante a apuração indicam que os diagnósticos eram ajustados conforme o perfil do preso. Em um dos registros, o médico sugere alterar a doença apresentada por não ser compatível com a idade do detento.
Conforme o Gaeco, até o momento, foram identificados mais de 22 atestados médicos suspeitos utilizados em processos judiciais. Com base nesses documentos, diversos detentos conseguiram prisão domiciliar, sendo que a maioria deles rompiam as regras impostas pelo Poder Judiciário e ficavam foragidos.
Investigação começou dentro do presídio
O caso teve início após a identificação de um padrão considerado incomum dentro da unidade prisional, com presos atendidos por uma mesma advogada apresentando laudos de consultas particulares que divergiam das avaliações feitas pelos profissionais de saúde do presídio.
A partir dessas suspeitas, a investigação foi aprofundada e apontou o possível conluio entre os envolvidos.
As investigações partiram da análise de alguns nomes de detentos inicialmente identificados, o que permitiu avançar na apuração e chegar a outros beneficiados pelo esquema. Segundo os responsáveis pelo caso, embora haja indícios de que nem todos os pedidos tenham sido aceitos pela Justiça, ainda não é possível precisar quantos foram negados ou de quem.
Cumprimento de mandados
Na terça-feira, dia 5, foram cumpridos 35 mandados de busca e apreensão, quatro de prisão temporária — entre eles o médico, a secretária, a advogada e um dos beneficiados que estava foragido —, além de um mandado de prisão preventiva. A operação mobilizou 209 agentes ao longo de 43 horas, com o uso de 52 viaturas.
Durante as diligências, foram apreendidos mais de R$ 100 mil em dinheiro, três armas de fogo, 64 munições, maconha, um pendrive, 17 celulares, três HDs, dois notebooks, um tablet e mais de 157 documentos, que agora passam por análise das autoridades.
Durante a ação, um policial militar foi atingido na perna esquerda por um disparo efetuado por um dos alvos. Conforme o órgão, ele passou por exames de imagem e não corre risco de morte. O suspeito, que já tinha contra si um mandado de prisão temporária, também foi preso em flagrante por tentativa de homicídio.
Segurança nas celas
Dentro do Complexo Penitenciário, também foram realizadas diligências. Além do cumprimento de mandados, houve reforço na segurança e revistas em celas, como parte da rotina da unidade. Durante as ações, foram apreendidos mais de 150 manuscritos, entre bilhetes e recados, com informações consideradas relevantes para a investigação.
Os agentes também encontraram dispositivos eletrônicos de pequeno porte, conhecidos como “smartwatch”, que estariam sendo utilizados de forma irregular por detentos para comunicação. Devido ao tamanho reduzido, esse tipo de material tem sido mais difícil de interceptar, mesmo com os mecanismos de controle adotados pela unidade prisional.
Próximos passos
Com o cumprimento dos mandados, a investigação entra agora em uma nova fase. O foco será a análise da movimentação financeira dos suspeitos para apurar o total arrecadado pelo grupo e possíveis crimes de lavagem de dinheiro.
A força-tarefa não descarta o envolvimento de outras pessoas nem novas etapas da operação.