RESUMO RÁPIDO
Em 26 de junho de 2026, o presidente Lula visitou Itajaí (SC) e acusou o governador Jorginho Mello (PL) de ter recusado uma parceria com o governo federal avaliada em R$ 24 bilhões em obras viárias. Durante a cerimônia de entrega do lote 2 da BR-470, Lula tampou com a mão o nome de Jorginho numa placa comemorativa. No mesmo discurso, citou Adolf Hitler ao criticar a posição do governador contra as cotas raciais. Jorginho negou tudo, chamou o governo federal de “picaretas” e, na noite do mesmo dia, o governo de SC anunciou que vai acionar a Procuradoria-Geral da República (PGR) pelas declarações sobre racismo.
Por que Lula criticou Jorginho Mello em Itajaí?
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cumpriu agenda em Itajaí no dia 26 de junho de 2026 com dois compromissos ligados à indústria naval: o lançamento de uma fragata da Marinha do Brasil e uma visita às obras de embarcações contratadas pela Petrobras no estaleiro Detroit Brasil. O governador Jorginho Mello (PL) não compareceu a nenhum dos dois eventos. Também havia faltado às duas visitas anteriores de Lula ao estado neste mandato, em agosto de 2024 e em março de 2025.
Foi durante o segundo evento que o ministro dos Transportes, George Santoro, revelou ao microfone que o governo federal teria buscado Santa Catarina para uma parceria em projetos viários de R$ 24 bilhões e que o estado recusou, sem apresentar argumentos. O Paraná, segundo Santoro, aceitou o mesmo modelo e fechou seis leilões que somaram R$ 110 bilhões em contratos. A recusa de SC, disse o ministro, obrigou o governo federal a refazer todo o planejamento, resultando em dois anos de atraso.
Lula entrou na conversa e foi direto. Disse que ficava “indignado” com a ausência do governador em todos os eventos federais no estado, que não sabia nem o nome do governador e chegou a questionar publicamente a capacidade intelectual de Jorginho: “Qual o tamanho da cabeça desse cidadão? Qual a qualidade da massa encefálica que ele tem na cabeça? É de se pesquisar.”
Ao final do descerramento da placa que marcava a entrega do lote 2 da duplicação da BR-470, o presidente cobriu com a mão esquerda o trecho onde constava o nome de Jorginho Mello. O gesto foi filmado e viralizou nas redes sociais ainda durante a tarde do dia 26.
Por que Lula citou Hitler num discurso sobre Santa Catarina?
No mesmo discurso em Itajaí, no dia 26 de junho, Lula abordou a posição de Jorginho Mello contra as cotas raciais nas universidades. Santa Catarina chegou a aprovar uma lei estadual proibindo as cotas, mas o STF derrubou a norma. Ao criticar essa postura, o presidente disse que não se pode “permitir que prevaleça em Santa Catarina o racismo” e que a população catarinense não pode ser “tomada pelo senso de grandeza”. Em seguida, mencionou Adolf Hitler para ilustrar o argumento sobre “hegemonia branca”: “Não tem um cara que é branco e é melhor do que o que é negro, o cara que é nordestino é pior do que o do Sul do país. Que história que é essa? Hitler tentou fazer isso e acabou do jeito que acabou.”
A declaração repercutiu de forma intensa. O contexto amplifica o impacto: Itajaí e toda a região do Vale do Itajaí têm forte colonização alemã, e a menção ao ditador nazista num discurso direcionado aos catarinenses não passou despercebida.
O que Jorginho Mello respondeu a Lula?
Ainda na tarde do dia 26 de junho, Jorginho Mello publicou vídeo nas redes sociais negando que qualquer proposta de R$ 24 bilhões tenha chegado ao governo estadual. Segundo o governador, o que o ministro chamou de “investimento” era um projeto de concessão de rodovias que implicaria cobrança de pedágio nas estradas catarinenses. Jorginho chamou os envolvidos de “picaretas” e afirmou que iria a Brasília cobrar explicações, mesmo que fosse sábado ou domingo.
Em agenda em Chapecó, também no dia 26, o tom foi ainda mais incisivo. O governador disse que “a conversa do Lula não me interessa”, que o presidente “mentiu de novo” e que “isso é conversa para boi dormir”. Questionou também por que o governo federal não finaliza o túnel do Morro dos Cavalos, em Florianópolis, obra de R$ 15 bilhões que segundo ele segue parada.
Por que o governo de SC acionou a PGR contra Lula?
Na noite do mesmo dia 26 de junho de 2026, o governo de Santa Catarina anunciou que vai ingressar com uma representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente Lula. O motivo não é a disputa sobre os R$ 24 bilhões, mas sim as declarações sobre racismo e a citação a Hitler feitas durante o discurso em Itajaí. Para Jorginho Mello, a fala teve caráter discriminatório e xenofóbico contra os catarinenses. Nas palavras do governador: “Uma coisa é o presidente me criticar. Outra coisa é chamar o povo catarinense de racista. Isso é criminoso e ele precisa responder por isso.” A Presidência da República não se manifestou sobre o anúncio da representação até o fechamento desta matéria.
Qual é o pano de fundo da briga entre Lula e Jorginho Mello?
A disputa tem uma camada concreta e uma camada eleitoral. Na camada concreta, o governo federal queria Santa Catarina como parceira em concessões de rodovias que incluiriam trechos estaduais integrados às federais, o que implicaria cobrança de pedágio. Jorginho diz que recuperou 3 mil quilômetros de estradas pelo programa Estrada Boa sem onerar o motorista e que não aceita o modelo proposto por Brasília.
Na camada eleitoral, Lula veio acompanhado de nomes como o pré-candidato ao governo do estado Gelson Merísio (PSB) e a pré-candidata a vice Angela Albino (PDT). O que até então era uma divergência institucional passou a ter contornos de confronto pessoal, inaugurando na prática um dos primeiros grandes embates da eleição de 2026 em Santa Catarina.
E quem paga a conta, se os projetos de infraestrutura não saírem, continua sendo o catarinense que fica esperando as obras nas rodovias.