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O algoritmo venceu: redes sociais lideram o consumo de notícias no Brasil

Confira a nova coluna do doutor em Comunicação e Linguagens, Moisés Béio Cardoso

Durante décadas, a relação das pessoas com as notícias seguia um ritual: o brasileiro ligava a TV para assistir ao telejornal, abria o jornal impresso pela manhã ou acompanhava a programação do rádio ao longo do dia. Havia um movimento ativo de procurar informação.

Hoje, esse comportamento mudou profundamente. Segundo o Digital News Report 2026, produzido pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, as redes sociais ultrapassaram os veículos de imprensa tradicionais como principal fonte de informação para uma parcela crescente da população.

A notícia continua existindo, mas o caminho até ela mudou de endereço: agora ela chega principalmente pelo celular. Isso significa que muitas pessoas já não procuram notícias. As notícias simplesmente aparecem no feed das redes sociais, na palma da mão.

Elas surgem entre vídeos de humor, fotos de amigos, propagandas, memes e mensagens de familiares. Em poucos segundos, o usuário passa de uma dança no TikTok para uma notícia sobre política, depois para um vídeo sobre futebol e, logo em seguida, para uma informação sobre economia ou segurança pública.

Essa mudança parece apenas tecnológica, mas ela também é uma mudança cultural. O artigo dessa semana é quase um mapa pra gente entender os caminhos digitais que a informação vai percorrer daqui pra frente. Fique com a gente e boa leitura!

O algoritmo virou o novo editor das notícias

Antigamente, havia profissionais responsáveis por selecionar quais acontecimentos mereciam destaque. Editores e jornalistas definiam manchetes com base em critérios como relevância pública, interesse social e impacto dos acontecimentos na comunidade.

Hoje, grande parte dessa decisão passou para os algoritmos das plataformas digitais. Os algoritmos analisam o comportamento de cada usuário. Eles observam quais vídeos foram assistidos até o final, quais postagens receberam curtidas, quais temas despertaram mais interesse e quais conteúdos geraram mais comentários ou compartilhamentos.

A partir dessas informações, as plataformas montam um feed personalizado para cada pessoa. Isso significa que duas pessoas podem abrir a mesma rede social no mesmo horário e receber notícias completamente diferentes. Ou seja, a escolha do que é visualizado é escolhida pelo algoritmo de cada rede social!

Na prática, cada cidadão passa a viver dentro de uma espécie de jornal particular, organizado por sistemas automatizados que aprendem suas preferências e tentam antecipar seus interesses.

O problema é que o algoritmo não procura o que é mais importante

Existe uma diferença fundamental entre jornalismo e algoritmos. O jornalismo, pelo menos em sua essência, procura responder uma pergunta: “O que as pessoas precisam saber?”

Já os algoritmos tentam responder outra: “O que fará as pessoas permanecerem mais tempo na plataforma?” Essa diferença muda tudo.

Uma notícia importante nem sempre é a mais envolvente. Muitas vezes, assuntos fundamentais para a sociedade exigem contexto, leitura mais demorada e reflexão.

Já conteúdos que provocam surpresa, indignação, medo ou polêmica tendem a gerar mais cliques e mais engajamento. Por isso, as plataformas acabam privilegiando aquilo que prende a atenção das pessoas.

O algoritmo não recompensa necessariamente o conteúdo mais relevante. Ele costuma recompensar o conteúdo mais capaz de gerar reação.

A atenção virou a moeda mais valiosa da internet

As plataformas digitais são empresas que disputam uma coisa extremamente valiosa: o tempo das pessoas. Quanto mais tempo o usuário permanecer conectado, mais anúncios ele vê, mais dados produz e maior é o potencial de monetização.

Por essa razão, os algoritmos são desenhados para maximizar a atenção humana. Eles aprendem rapidamente quais assuntos despertam emoções intensas e passam a oferecer mais conteúdos semelhantes.

Esse mecanismo cria um ambiente informacional muito diferente daquele que existia nos meios tradicionais. A informação deixa de seguir apenas critérios de importância pública e passa a disputar espaço dentro de uma lógica baseada no engajamento.

O resultado é que nem sempre estamos vendo as notícias mais importantes do dia. Muitas vezes estamos vendo as notícias que o algoritmo acredita que têm maior capacidade de nos manter olhando para a tela.

Mais informação não significa melhor informação

Nunca foi tão fácil ter acesso a conteúdo. No entanto, a abundância de informações também trouxe novos desafios. Nas redes sociais convivem lado a lado reportagens produzidas por jornalistas, análises de especialistas, opiniões pessoais, publicidade, boatos, conteúdos falsos e todo tipo de maluquice produzida pelos influenciadores para monetizar com a viralização.

Para o usuário comum, nem sempre é simples identificar as diferenças. Uma reportagem investigativa e um vídeo desinformativo podem aparecer com o mesmo destaque no feed.

A tela do celular não deixa claro quais conteúdos passaram por processos de apuração e verificação e quais foram produzidos apenas para chamar atenção. Em muitos casos, o usuário sequer sabe por que determinada notícia apareceu para ele.

A resposta costuma ser simples: apareceu porque o algoritmo decidiu que aquele assunto tinha grande potencial de gerar interação. Ou seja, o algoritmo sabe mais sobre o usuário do que ele mesmo.

Os jovens estão aprendendo a se informar de outra maneira

A mudança é ainda mais visível entre os mais jovens. Para uma parcela significativa dessa geração, as redes sociais se tornaram a principal porta de entrada para as notícias.

O TikTok virou buscador. O Instagram virou fonte de informação. Vídeos curtos passaram a disputar espaço com reportagens longas e análises aprofundadas.

Isso não significa que os jovens estejam desinteressados pela realidade. Significa apenas que a forma de consumir informação mudou.

O desafio é que, nesse novo ambiente, o papel de selecionar e distribuir notícias está cada vez mais nas mãos de sistemas automatizados que atendem aos interesses de grandes corporações.

O algoritmo venceu?

É exagero dizer que o jornalismo perdeu. As redações continuam produzindo reportagens, investigando fatos e explicando acontecimentos complexos. Mas existe uma mudança difícil de ignorar: elas já não controlam a principal porta de entrada da informação.

Quem organiza grande parte do que vemos hoje são os algoritmos das plataformas digitais. Eles escolhem a ordem das postagens, definem quais assuntos ganham mais alcance e influenciam quais notícias chegam até nós.

A notícia continua sendo produzida por pessoas. Mas cada vez mais ela é distribuída por máquinas.

E talvez a pergunta mais importante do nosso tempo seja justamente esta: estamos nos informando sobre o que realmente importa ou apenas consumindo aquilo que os algoritmos decidiram nos mostrar?

Nos vemos semana que vem, valeu!

Entenda mais sobre o assunto assistindo ao vídeo abaixo:

Saiba mais sobre Moisés Béio Cardoso

“Sempre fui apaixonado pelas temáticas que envolviam a comunicação: vídeos, fotos, revistas, e eventos.”, diz Moisés Béio Cardoso, doutor em comunicação e linguagens. Ele nasceu em Blumenau no ano de 1977 e se destacou na área de comunicação e tecnologia. 

Atualmente, ele é consultor de comunicação digital e palestrante. Além disso, atua como investidor e Trader na B3.

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