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Influenciadores gerados por IA espalham desinformação política

Confira a nova coluna do doutor em Comunicação e Linguagens, Moisés Béio Cardoso

Imagine abrir o YouTube ou uma rede social e assistir a um comentarista político analisando pesquisas, explicando propostas de candidatos e fazendo previsões sobre as eleições. Ele fala com segurança, parece bem informado e transmite credibilidade.

Agora imagine descobrir que essa pessoa simplesmente não existe. Ela foi criada por inteligência artificial.

À medida que as eleições de 2026 se aproximam, pesquisadores e especialistas têm identificado nas redes sociais um perigoso viral: influenciadores políticos artificiais que produzem conteúdo como se fossem analistas, comentaristas ou especialistas reais.

O problema é que muitos deles não informam claramente que são personagens gerados por IA e, em diversos casos, acabam ajudando a espalhar desinformação.

Fique com a gente e vamos desenrolar esse tema na coluna de hoje, boa leitura!

O que são os influenciadores criados por IA?

Os avanços recentes da inteligência artificial permitem criar personagens extremamente convincentes. Eles podem ter rosto, voz, nome, perfil nas redes sociais e até uma personalidade própria.

Esses influenciadores artificiais são capazes de produzir vídeos, gerar comentários políticos e publicar conteúdo praticamente sem interrupção. Alguns aparecem diante da câmera como qualquer criador de conteúdo tradicional, utilizando expressões faciais e movimentos que passam a impressão de estarmos diante de uma pessoa de verdade.

Para quem está assistindo, muitas vezes não há qualquer sinal evidente de que se trata de um personagem gerado por computador.

O problema é que muitos escondem que não são reais

Estudos recentes do Data Privacy Brasil e o Aláfia Labs identificaram diversos influenciadores políticos artificiais atuando nas redes brasileiras. Grande parte deles não informa de maneira clara que foi criada por inteligência artificial.

Isso cria uma situação delicada. O usuário acredita estar ouvindo um jornalista, um professor ou um especialista em política, quando, na realidade, está diante de um personagem sintético.

A questão não é apenas tecnológica. Ela também envolve transparência.

Em qualquer relação de comunicação, saber quem está falando é uma informação importante para que as pessoas possam avaliar o contexto, a experiência e a credibilidade da fonte.

Quando essa informação é omitida, a audiência perde um elemento fundamental para exercer seu senso crítico.

Quando a IA vira uma máquina de desinformação

A inteligência artificial possui uma característica que a torna especialmente poderosa no ambiente político: a capacidade de produzir conteúdo em larga escala.

Enquanto um influenciador humano tem limitações de tempo, energia, produção e custo, um personagem artificial pode publicar vídeos, comentários e análises continuamente.

Isso permite gerar uma quantidade enorme de conteúdo político em pouco tempo.

Pesquisas já identificaram que uma parcela significativa desses influenciadores artificiais esteve associada à circulação de informações falsas ou enganosas. Nem sempre a desinformação aparece na forma de uma mentira explícita. Muitas vezes ela surge por meio de dados apresentados fora de contexto, análises distorcidas ou opiniões construídas para induzir determinadas interpretações.

A velocidade de produção acaba tornando a checagem muito mais difícil.

Por que as pessoas acreditam?

Existe um fator humano importante nesse processo. Nós tendemos a confiar em pessoas que parecem confiáveis.

Um rosto bem apresentado, uma fala segura, uma boa edição de vídeo e uma linguagem técnica transmitem sensação de autoridade. Nosso cérebro costuma associar aparência profissional e segurança na comunicação com credibilidade.

A inteligência artificial consegue reproduzir todos esses elementos. O resultado é que um personagem inexistente pode parecer mais convincente do que uma pessoa real.

E justamente por parecer um especialista, ele pode influenciar opiniões e decisões de quem o acompanha.

Qual o risco para as eleições?

Toda eleição depende da circulação de informações de qualidade. Mas a inteligência artificial tornou extremamente fácil criar comentaristas artificiais, multiplicar conteúdos políticos e ampliar boatos em grande escala.

Isso não significa que a tecnologia seja, por si só, uma ameaça à democracia. A inteligência artificial possui inúmeros usos positivos na educação, na saúde e em diversas áreas da sociedade.

O problema surge quando ela é utilizada para criar uma falsa sensação de autoridade ou para manipular o debate público.

Se uma única pessoa consegue criar dezenas de personagens artificiais, cada um produzindo conteúdo político diariamente, o ambiente informacional se torna mais complexo e mais difícil de compreender.

A mentira nem sempre precisa “ser acreditada” para se espalhar

Outro aspecto preocupante é o comportamento dos usuários nas redes sociais. Pesquisas mostram que muitas pessoas compartilham conteúdos políticos mesmo quando não têm certeza sobre sua veracidade.

Às vezes fazem isso porque concordam emocionalmente com a mensagem. Outras vezes, porque o conteúdo parece interessante, provoca indignação ou simplesmente chama a atenção.

Outro nome pra isso é: Pós-Verdade – eu sei que uma informação é falsa, mas por conta das minhas convicções pessoais, políticas ou religiosas, eu passo uma informação pra frente pra minha rede de contato.

Ou seja, na internet, uma informação falsa não precisa ser completamente acreditada para alcançar milhões de pessoas. Basta que seja compartilhada. E a inteligência artificial aumenta ainda mais essa capacidade de produção e circulação de conteúdos.

Como identificar um influenciador artificial?

Nem sempre é fácil perceber que um perfil foi criado por inteligência artificial, mas alguns sinais podem ajudar.

Vale desconfiar de biografias vagas, ausência de informações verificáveis sobre a pessoa, dificuldade de encontrar registros profissionais fora das redes sociais e produção de conteúdo em um ritmo praticamente impossível para um ser humano.

Também é importante pesquisar quem está falando, procurar outras fontes e verificar se as informações apresentadas são confirmadas por veículos confiáveis e instituições reconhecidas.

Em um ambiente cada vez mais automatizado, descobrir a origem de uma informação se tornou tão importante quanto analisar o seu conteúdo.

Entramos na era da dúvida digital?

Durante muitos anos, o principal desafio da internet era descobrir se uma notícia era verdadeira ou falsa. Agora surgiu uma nova pergunta: a pessoa que está falando com você existe de verdade?

A inteligência artificial trouxe inúmeras oportunidades e ferramentas extraordinárias. Mas também inaugurou um cenário em que rostos, vozes e especialistas podem ser fabricados digitalmente.

Nas eleições de 2026, não será suficiente perguntar apenas se a informação é verdadeira.

Talvez seja necessário perguntar também se a pessoa que está transmitindo aquela mensagem realmente existe.

Nos vemos semana que vem, valeu!

Entenda mais sobre o assunto assistindo ao vídeo abaixo:

Saiba mais sobre Moisés Béio Cardoso

“Sempre fui apaixonado pelas temáticas que envolviam a comunicação: vídeos, fotos, revistas, e eventos.”, diz Moisés Béio Cardoso, doutor em comunicação e linguagens. Ele nasceu em Blumenau no ano de 1977 e se destacou na área de comunicação e tecnologia.

Atualmente, ele é consultor de comunicação digital e palestrante. Além disso, atua como investidor e Trader na B3.

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