Confira a primeira coluna de Gabriel Mozart no PortalBnu
De onde vem o vinho: a história e cultura em uma garrafa
Confira a primeira coluna de Gabriel Mozart no PortalBnu
Confira a primeira coluna de Gabriel Mozart no PortalBnu

Uma bebida que hoje é trivial e encontrada em todo mercado pode trazer a tona uma conversa de longas horas da história. Antes de ser mercadoria, antes de ser produto, antes mesmo de ser prazer, o vinho foi um gesto civilizatório — a primeira vez que o ser humano decidiu esperar. Guardar o suco da uva para que o tempo o transformasse em algo maior. Esta espera provavelmente não se sabia que o resultado seria outro. Uma vez que foi descoberta a primeira fermentação do suco de uva, as esperas subsequentes foram uma aposta, uma espera calculada. Esta paciência, esse ato de confiança no futuro, talvez seja a mais bela definição de cultura.
Os registros mais antigos de produção de vinho remontam a 8.000 anos atrás, na região do Cáucaso (atual Geórgia), onde ânforas com resíduos de vinho foram encontradas por arqueólogos. Neste momento o vinho era algo para consumo próprio.
Foram os egípcios, cerca de 3.000 anos antes de Cristo, que deram o salto seguinte — transformaram o vinho de fermentado caseiro em pilar religioso e social. Pela primeira vez, alguém produzia vinho não para beber, mas para distribuir.
Não à toa os egípcios também foram grandes impulsionadores do vidro e de peças para a degustação. Há diversos copos e ânforas egípcias de vidro soprado que eram utilizados para guardar e consumir o vinho. Peças estas que hoje estão espalhadas pelos museus mais importantes do mundo. Afrescos do processo de sopro do vidro e do cultivo e consumo do vinho adornavam diversas tumbas e sarcófagos do país africano.
Na Grécia Antiga, o simpósio — o “beber juntos” — era o centro da vida intelectual. Homero cantou o vinho na Ilíada e na Odisseia como símbolo de hospitalidade e coragem. Sócrates, Platão e Aristóteles discutiam filosofia com taças nas mãos. O vinho não era um adorno da conversa — era a sua condição. Como disse o dramaturgo grego Ésquilo: “O bronze é o espelho da forma; o vinho, o espelho da mente.”

Os romanos, por sua vez, transformaram o vinho em engenharia social. Leis regulavam a produção, o envelhecimento e até o consumo nas províncias. Plínio, o Velho, escreveu: “No vinho, a verdade” (In vino veritas) — expressão que até hoje ecoa como lembrança de que o vinho desarma as máscaras sociais e revela o que somos.
Esta expressão, às vezes mal-entendida, não significa que o vinho é a verdade, mas no vinho a humanidade das pessoas se revela, a alma amansa e ela, após alguns goles, demonstra realmente quem a pessoa é.
Se há um tema que atravessa a literatura universal, é o vinho. Ele é metáfora de sangue, de vida, de morte, de êxtase, de melancolia.
William Shakespeare colocou na boca de seus personagens algumas das passagens mais célebres sobre o vinho. Em Otelo, escreveu: “O vinho é um bom confidente: tira os segredos do coração e os põe na ponta da língua.” Já em Antônio e Cleópatra, o vinho é o elixir que torna os homens mais próximos dos deuses.
O poeta persa Omar Khayyam, no Rubaiyat, transformou o vinho em filosofia de vida diante da efemeridade: “O vinho é a realidade que nos resta quando as promessas do céu se desfazem.” Para ele, a taça não era um vício, mas um lembrete de que a vida é breve e deve ser vivida com plenitude.
Charles Baudelaire, em Os Paraísos Artificiais, escreveu que “o vinho é semelhante ao homem: nunca se sabe até que ponto merece admiração ou desprezo.” E Ernest Hemingway, prêmio Nobel que escreveu sobre vinho com a mesma precisão com que escrevia sobre guerra, disse certa vez: “O vinho é uma das grandes coisas da civilização e foi levado a um grau de perfeição que poucas coisas humanas alcançaram.”
Mais perto de nós, o português Fernando Pessoa, em seu heterônimo Ricardo Reis, sintetizou a relação do vinho com o tempo: “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos que a vida passa, e não estamos de mãos vazias.” Não há vinho no poema, mas há o gesto de sentar-se, de partilhar o tempo, que é o gesto mais profundo de quem abre uma garrafa.
Se os poetas viram no vinho a alma humana, os políticos viram nele um instrumento de diplomacia, poder e inteligência estratégica.
Thomas Jefferson escreveu: “Bom vinho é uma necessidade da vida para mim.” Jefferson importou videiras da Europa para a América, tentou cultivar vinhedos em Monticello e deixou cartas que são tratados sobre a relação entre vinho e civilização. Para ele, uma nação sem vinho era uma nação sem refinamento.
Winston Churchill, talvez o mais célebre apreciador de champanhe da história, resumiu sua filosofia em poucas palavras: “Lembre-se, senhores, não estou apenas bebendo champanhe. Estou bebendo a vitória.” Durante a Segunda Guerra, Churchill manteve sua adega abastecida mesmo sob racionamento — não por luxo, mas porque acreditava que a civilização que se defendia era também aquela que sabia celebrar a vida.

Winston Churchill e sua taca de Champagne
Dom Pedro II, imperador do Brasil, era conhecido por sua adega refinada e por receber cientistas, artistas e diplomatas à mesa com vinho. Sua biblioteca pessoal, hoje na Biblioteca Nacional, contém dezenas de tratados sobre viticultura e enologia. O vinho, para ele, era símbolo de um Brasil que se queria civilizado e cosmopolita.
De tudo o que o vinho representa, talvez seu papel mais profundo seja o mais simples: o de reunir pessoas em torno de uma mesa.
Não há sofisticação que substitua o gesto de abrir uma garrafa para compartilhar. O vinho não se consome sozinho — ou, quando se consome, é sempre na direção de um outro ausente, de uma memória que se quer presente. O filósofo francês Gaston Bachelard escreveu que “o vinho é o tempo que se bebe”. Quando levantamos uma taça, não bebemos apenas uva fermentada — bebemos as histórias que aquela garrafa guarda, os anos que passaram, a mão do produtor, o sol da colheita.
Na mesa familiar, o vinho é o ritual que transforma a refeição em comunhão. É o fio invisível que liga o almoço de domingo à última ceia, o brinde de Ano Novo às bodas de Caná. Como escreveu o escritor italiano Luigi Veronelli: “O vinho é o canto da terra que se faz poesia na taça.”
Há um trecho belíssimo do cronista brasileiro João do Rio, que no início do século XX escreveu sobre o vinho no Rio de Janeiro: “Uma garrafa de vinho é um telegrama de Deus. Diz que a vida vale a pena, que o mundo não é só dor, que há prazeres legítimos e que a amizade, quando regada, floresce.”
O vinho não é apenas uma bebida. É um documento histórico líquido. Em cada taça, cabem oito milênios de história, a geografia de um lugar, a mão do produtor, a conversa dos filósofos, os versos dos poetas, os brindes dos estadistas e o abraço silencioso de uma família ao redor da mesa.
Nesta coluna, a cada quinze dias, vamos explorar esse universo. Não falaremos apenas de safras, uvas ou regiões. Falaremos do vinho como expressão cultural — do seu papel na arte, na política, na literatura, na fé, na identidade dos povos. Falaremos do vinho no Brasil, desde as primeiras videiras plantadas por Martim Afonso de Souza até os premiados espumantes feitos por descendentes de colonos do Sul do país. Falaremos das histórias que as garrafas guardam.
Parafraseando o dramaturgo grego Ésquilo, o vinho é o espelho da mente. Ou, como prefiro pensar, é o espelho da nossa humanidade. Porque nenhuma outra bebida nos acompanhou tanto, ensinou tanto, revelou tanto sobre quem somos.
Que venham os próximos brindes e espero que você me receba em sua casa para compartilhar estes momentos de leitura e deleite.
Gabriel Vidigal é sommelier WSET3, economista, advogado, geógrafo e diretor da Mozart Crystal, fornecedora de taças de vinho para mais de 160 vinícolas brasileiras
Confira a primeira coluna de Gabriel Mozart no PortalBnu
Nossos profundos sentimentos a familiares e amigos por este momento
Conheça o legado de uma das homenageadas da 6ª edição
Município intensifica ações de monitoramento, prevenção e preparação diante das
Imagens de câmeras e vídeos seguem sendo analisados pela Polícia
Programação reúne opções de graça e solidárias em Blumenau
© 2025 Criado com Edem Comunicação
O PortalBnu é o portal de Notícias da sua região. Fique atualizado com as principais notícias de Santa Catarina, Brasil e do Mundo.
(47) 93382-7016
Blumenau / SC / Brasil
redacao@portalbnu.com.br
Anuncie Whatsapp: (47) 99149-4520