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Pai e filha, cães de busca são aposentados juntos pelo Corpo de Bombeiros de SC

Labradores descendem do cão Brasil, primeiro cão de busca da corporação certificado internacionalmente, e participaram de missões históricas como Brumadinho e Petrópolis

Os labradores Iron e Léia, pai e filha, foram aposentados juntos do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC) na última sexta-feira, dia 15, em Porto União. O ato simbólico encerra uma trajetória iniciada ainda em 2003, com o cão Brasil, primeiro cão de busca certificado internacionalmente da corporação catarinense.

Iron, com mais de 10 anos, é filho de Brasil, que morreu em 2020. Léia, de quase 8 anos, é neta do cão que marcou a história das operações de busca em Santa Catarina. As três gerações atuaram no CBMSC ao longo das últimas duas décadas.

Cão Iron. Foto: Ricardo Wolff/SECOM

Trajetória de Iron

A carreira de Iron começou em Xanxerê, no Oeste catarinense, ao lado do cabo Josclei Tracz, onde atuou por oito anos. Depois, acompanhou o bombeiro na transferência para Porto União, encerrando ali os dois últimos anos de serviço.

Em mais de uma década de atuação, o binômio, termo técnico utilizado para definir a dupla formada por bombeiro e cão, participou de mais de 70 ocorrências, conquistou sete certificações, incluindo uma internacional, e integrou missões nacionais de grande repercussão.

Entre elas está a tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais, em janeiro de 2019, após o rompimento da barragem da Vale que matou 272 pessoas. O CBMSC enviou quatro Forças-Tarefa em apoio ao Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, com 43 militares e sete cães. Iron integrou duas das equipes enviadas.

Na primeira missão, o cão chegou ao local no dia 30 de janeiro ao lado do cabo Josclei. Depois de um período de descanso, retornou para uma nova etapa da operação.

“Brumadinho, fomos na primeira equipe, descansamos e depois partimos de novo. Depois teve Petrópolis, Rio Grande do Sul, Presidente Getúlio”, relatou o cabo Josclei Tracz, condutor do Iron.

Durante a segunda passagem por Brumadinho, Iron sofreu um ferimento na pata dianteira direita após ser atingido por um espinho. O cão precisou passar por uma cirurgia de emergência no hospital de campanha montado pelo Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais. Josclei, que além de condutor também é médico veterinário, acompanhou o procedimento. Iron foi o único cão catarinense ferido em mais de 50 dias de missão. Dez dias depois da cirurgia, voltou a atuar nas buscas e ainda integrou a quarta equipe enviada ao local.

Além das grandes tragédias, Iron atuou principalmente em buscas terrestres por pessoas desaparecidas em áreas de mata.

“Busca terrestre é o nosso maior serviço. Principalmente pessoas que se perdem pela mata. Agora nesse inverno, é comum pessoas mais velhas saírem, por exemplo, para colher pinhão e se perder na mata. Serviço de cães, instruções, a gente sempre fala isso: acionar cães, drones, os recursos. Além de saber a capacidade, a diferença que faz é extraordinária”, destaca o cabo Josclei.

Em fevereiro de 2020, em Xanxerê, Iron ajudou a localizar um homem de 86 anos desaparecido há mais de 24 horas após fugir de um lar de idosos. O idoso foi encontrado cansado e desidratado, mas com vida.

Já em janeiro de 2023, em Luzerna, Iron e Josclei foram chamados para reforçar uma busca que entrava no terceiro dia. O homem desaparecido foi localizado em uma área específica de mata fechada próxima ao Rio do Peixe. A vítima estava desidratada e com fome, sendo retirada do local por embarcação devido ao terreno íngreme e à vegetação densa.

No entanto, nem todas as missões terminaram em resgates. Em julho de 2023, em Chapecó, Iron participou de uma operação da Polícia Civil em um terreno suspeito. Durante a varredura, o cão sinalizou um poço cheio de lixo. Os bombeiros montaram um tripé e desceram cerca de três metros, encontrando ossadas de duas vítimas. A busca por restos mortais é uma das certificações do cão, modalidade implementada pela primeira vez em Santa Catarina em 2021.

Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Arquivo/Secom GOVSC

A história de Léia

Léia é filha de Iron e da cadela Malu, também integrante do serviço de busca do CBMSC. Conduzida pelo cabo David Canever, da Organização Bombeiro Militar (OBM) de Canoinhas, no Planalto Norte, a labradora iniciou os treinamentos ainda filhote.

O trabalho incluiu treinamentos diários em buscas urbanas, rurais, aquáticas e por restos mortais, além de operações noturnas com GPS e poucas referências visuais. Ao longo da carreira, acumulou certificações em busca urbana, rural e restos mortais.

Em fevereiro de 2022, Léia integrou a equipe enviada pelo CBMSC para apoiar as buscas em Petrópolis, no Rio de Janeiro, após os deslizamentos provocados pelas fortes chuvas que deixaram mais de 200 mortos. Pai e filha atuaram na mesma tragédia, mesmo pertencendo a batalhões diferentes.

Léia. Foto: Divulgação CBMSC/Ricardo Wolff

“Ficamos 10 dias ali na região do Morro da Oficina, onde teve o deslizamento que levou ao soterramento de mais de 50 casas, com múltiplas vítimas. Trabalhamos muito ali. Mas existem, claro, as ocorrências diárias, que são um papel contínuo e que trazem muita gratificação.”, destacou o cabo David Canever.

Ao longo da carreira, Léia participou de pelo menos 18 buscas oficiais documentadas na região entre Porto União e Campo Alegre. Muitas delas ocorreram durante a noite e envolveram idosos, crianças e pessoas desaparecidas em áreas de mata.

As cidades de Rio Negrinho, São Bento do Sul e Campo Alegre concentraram o maior número de localizações bem-sucedidas feitas pela cadela, em áreas de serra e vegetação densa.

Léia. Foto: Divulgação CBMSC/Ricardo Wolff

A rotina dos cães de busca

No CBMSC, os cães de busca vivem nas casas dos próprios condutores e fazem parte da rotina das famílias. O treinamento é baseado exclusivamente em reforço positivo.

“A gente tem todo o apego, né. É um vínculo muito forte. Eu ia na casa do sargento Moisés em Xanxerê, onde tinha uma ninhada de filhotes. Ia duas vezes por semana. Escolhi, peguei, levei pra casa, fiz o treinamento, passei nas provas de certificação com ele. É intensa a atividade e com cães tem um diferencial muito forte: não é só cuidar de você, tem que também cuidar do seu parceiro”, avaliou o cabo Josclei Tracz.

Santa Catarina foi uma das primeiras corporações do Brasil a adotar o modelo em que os cães vivem com os bombeiros. Atualmente, outras instituições do país replicam a estratégia.

A raça escolhida pelo CBMSC é o labrador, devido ao temperamento dócil, facilidade de interação com humanos em situações de estresse e capacidade olfativa. Todos os cães operacionais da corporação descendem da mesma linhagem genética, com cruzamentos planejados para reduzir predisposições a doenças hereditárias.

“Quando estavam os dois juntos em Porto União, eu e o Josclei trabalhamos com nossos cães lado a lado, treinando juntos, foi muito emocionante, pois era pai e filha juntos. Deu uma evolução muito grande para os dois, Iron e Léia, além do carinho que eles tinham entre eles”, apontou o cabo Canever.

“Hoje, a Léia está comigo, na minha casa, com a certeza que ela deu o melhor por Santa Catarina, sabe? É merecido esse descanso. Ela ainda ama a busca, a sensação de encontrar algo, mantemos isso hoje, mas agora na brincadeira, sem os perigos da realidade, é um tempo merecido de recolhimento após tanto tempo servindo pela corporação”, concluiu Canever.

O legado do cão Brasil

Em fevereiro de 2020, o CBMSC se despediu do cão Brasil, primeiro labrador da corporação a conquistar certificação internacional em buscas. O animal morreu aos 16 anos, em decorrência de um câncer, na casa do condutor, o cabo Moisés Kluska. Ele estava aposentado desde 2015.

Ao longo da carreira, Brasil participou de mais de 100 buscas. Um dos principais destaques foi a atuação durante a tragédia climática de 2008 no Vale do Itajaí, quando enchentes e deslizamentos deixaram 135 mortos. O cão ajudou na localização de 23 vítimas.

Cão Brasil. Foto: Divulgação CBMSC/Ricardo Wolff

Antes de Brasil, a certificação internacional para cães de busca era considerada praticamente impossível no país. Depois dele, o reconhecimento se tornou referência dentro da corporação.

Além do legado operacional, Brasil também deixou descendentes que seguiram atuando no CBMSC. Iron é filho dele. Os cães Chewbacca, Zaara e Barney, já falecido, são bisnetos. Léia e Dante são netos. Ao todo, três gerações da mesma linhagem integraram as equipes de busca catarinenses.

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