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Cidadania digital: e se você pudesse levar seus seguidores para outra rede social?

Confira a nova coluna do doutor em Comunicação e Linguagens, Moisés Béio Cardoso

Quantas pessoas você conheceu na internet e nunca mais encontrou? Antes do Instagram, do TikTok e até do Facebook, muita gente já construía relações em outras plataformas. Tínhamos amigos no Fotolog, contatos no MSN, comunidades no Orkut e perfis em redes que, com o tempo, perderam espaço ou simplesmente desapareceram.

A internet mudou, nós migramos para novos ambientes digitais e levamos parte dessas relações conosco. Mas quase nunca conseguimos levar todas. Alguns amigos aceitaram nossos novos convites. Outros nunca criaram uma conta na plataforma seguinte. E muitos simplesmente desapareceram da nossa vida digital.

Essa história se repetiu várias vezes. Mudamos de redes sociais, reconstruímos nossa audiência e, no caminho, deixamos pessoas para trás. Mas será que isso precisa continuar acontecendo? Fique com a gente e boa leitura.

Nós já migramos de rede social várias vezes

Para muita gente que começou a usar a internet nos anos 2000, a memória digital passa por uma sequência de plataformas.

O Fotolog, lançado em 2002, tornou popular a ideia de manter uma espécie de diário público baseado em fotografias e comentários. O serviço teve grande presença entre usuários brasileiros antes de perder espaço para outras plataformas.

Depois veio o Orkut (2004), que se transformou em um dos principais espaços de convivência digital do país. Para muitas pessoas, a mudança significava tentar reencontrar, em uma nova plataforma, os contatos que já existiam no MSN e em outros serviços. Alguns amigos migravam junto. Outros não.

Depois vieram Facebook, Twitter, hoje X e YouTube. O Instagram se consolidou como um dos principais ambientes para compartilhar imagens e vídeos. O LinkedIn passou a concentrar conexões profissionais. Mais recentemente, o TikTok criou uma nova dinâmica de produção e consumo de conteúdo.

Cada plataforma trouxe uma experiência diferente. Mas também repetiu um mesmo problema: quando mudamos de ambiente, precisamos reconstruir parte da nossa vida digital. E, ao longo dessas migrações, perdemos contatos, conversas, comunidades e relações que ficaram presas em plataformas que deixamos de usar.

O problema de mudar de plataforma

Quando você decide abandonar uma rede social, não está simplesmente apagando um aplicativo do celular. Dependendo da plataforma, ali estão seus amigos, seguidores, mensagens, fotografias, vídeos e uma audiência construída durante anos.

É possível criar uma conta em outro lugar. O problema é que você precisa convencer as pessoas a encontrarem você novamente. Isso é relativamente simples quando falamos de alguns amigos próximos.

Mas imagine uma pessoa que construiu uma comunidade de milhares de seguidores durante anos. Ou uma empresa que depende daquela rede para se comunicar com seus clientes. A mudança deixa de ser apenas tecnológica. Ela passa a ter um custo social e, em alguns casos, financeiro.

A pergunta, então, é bastante simples: se fomos nós que construímos essas relações, por que é tão difícil levá-las para outro ambiente?

O que é interoperabilidade?

A resposta passa por um conceito chamado interoperabilidade. Em termos simples, interoperabilidade é a capacidade de diferentes sistemas conseguirem se comunicar.

O e-mail é um bom exemplo. Uma pessoa que utiliza o Gmail consegue enviar uma mensagem para alguém que usa o Outlook. Os serviços são diferentes, mas conseguem conversar.

Nas redes sociais, a situação é diferente. Sua comunidade no Instagram não acompanha automaticamente você caso decida criar uma conta em outra plataforma. Os seguidores continuam naquele ambiente.

A ideia da interoperabilidade é justamente discutir se sistemas diferentes poderiam se comunicar de maneira mais aberta, reduzindo as barreiras que hoje dificultam essa circulação.

Isso não significa que todas as redes sociais deveriam se transformar em uma única plataforma. A ideia é outra: permitir mais liberdade para o usuário circular entre ambientes diferentes.

Levar os dados não é o mesmo que levar as pessoas

Hoje, existem mecanismos de portabilidade de dados que permitem ao usuário obter determinadas informações armazenadas em uma plataforma. Mas baixar fotografias, publicações ou outros dados não significa reconstruir automaticamente a rede de relações que existia naquele lugar.

Uma pasta cheia de arquivos não substitui uma comunidade. A grande discussão, portanto, vai além da possibilidade de salvar seus dados. Ela envolve algo mais complexo: como permitir que as pessoas tenham maior controle sobre as conexões que construíram ao longo da vida digital.

É nesse ponto que a interoperabilidade se torna uma discussão interessante.

Imagine um passaporte para a sua vida digital

Aqui entra uma metáfora que ajuda a simplificar esse debate. Imagine que sua identidade digital funcionasse como uma cidadania. Hoje, as plataformas são quase como países diferentes.

Você pode sair de um e entrar em outro, mas muitas vezes precisa começar sua vida social novamente. Encontrar pessoas, construir uma audiência e estabelecer novas conexões.

Agora imagine um passaporte digital. Você continua sendo você, independentemente da plataforma que utiliza. Muda o ambiente, mas sua identidade pode acompanhar você. Essa é uma forma simples de pensar no potencial da interoperabilidade.

As redes sociais poderiam continuar sendo diferentes, com suas próprias regras e características. Mas o usuário teria maior capacidade de circular entre elas sem precisar deixar toda a sua história para trás.

A plataforma seria o lugar onde você está. Sua identidade digital, porém, continuaria sendo sua.

Mas seus seguidores são realmente seus?

Quando alguém diz que tem 10 mil, 50 mil ou 100 mil seguidores, parece natural pensar que aquela audiência pertence àquela pessoa. Mas a situação é mais complexa. A pessoa produz conteúdo, constrói reputação e conquista uma comunidade. Ao mesmo tempo, é a plataforma que controla o ambiente onde essa relação acontece.

Ela controla a infraestrutura, as regras e os mecanismos que determinam como uma publicação chega, ou deixa de chegar, até os seguidores.

Por isso, talvez a pergunta não seja exatamente de quem são os seguidores. A pergunta mais interessante é: Quem controla o acesso entre você e as pessoas que escolheram acompanhar você?

Você pode construir uma audiência durante anos, mas não possui necessariamente uma forma direta de levá-la para outro ambiente. Essa dependência ajuda a explicar por que abandonar uma rede social pode ser tão difícil.

Por que não é tão simples sair?

Uma rede social se torna mais valiosa quando as pessoas que conhecemos estão nela. É difícil abandonar uma plataforma quando nossos amigos, familiares, colegas de trabalho ou audiência continuam utilizando aquele espaço.

Muitas vezes, permanecemos em uma rede não porque ela seja nossa opção favorita, mas porque sair significaria se afastar de uma parte importante da nossa vida digital. Esse é um dos motivos pelos quais novas plataformas enfrentam um grande desafio.

Não basta criar um serviço melhor. É preciso convencer as pessoas a recomeçarem. A interoperabilidade poderia reduzir parte dessa barreira. Uma pessoa poderia experimentar novos ambientes sem necessariamente precisar reconstruir toda a sua presença digital.

Isso teria impacto não apenas para os usuários, mas também para a concorrência entre plataformas.

A Europa já está discutindo esse problema

A União Europeia vem tratando de questões relacionadas à portabilidade de dados e à interoperabilidade por meio do “Digital Markets Act” (Lei de Mercados Digitais), legislação voltada principalmente para grandes plataformas digitais classificadas como “gatekeepers”.

A legislação estabelece mecanismos para facilitar a portabilidade dos dados dos usuários. No caso da interoperabilidade, as obrigações são específicas e não significam, pelo menos por enquanto, que todas as redes sociais precisem permitir que usuários transportem automaticamente seus seguidores de uma plataforma para outra.

Esse detalhe é importante para não simplificarmos demais o debate. A Comissão Europeia, inclusive, avaliou em 2026 a possibilidade de ampliar determinadas exigências de interoperabilidade para redes sociais, mas considerou prematuro fazer essa extensão neste momento.

Por outro lado, o DMA (Direct Memory Access – Acesso Direto à Memória) já produziu mudanças relacionadas à portabilidade de dados e à interoperabilidade em outros serviços digitais. Ou seja, a ideia de que usuários deveriam ter mais liberdade para circular entre grandes ecossistemas digitais já faz parte de uma discussão concreta.

E se a próxima rede social não exigisse que você começasse do zero?

Imagine que amanhã surja uma nova rede social. Ela pode ter uma proposta melhor, oferecer mais privacidade, um algoritmo diferente ou simplesmente proporcionar uma experiência que você considera mais interessante.

Hoje, existe uma grande barreira: começar praticamente do zero. Você precisa criar um perfil, encontrar novamente seus contatos e convencer sua audiência a fazer a mesma migração.

Agora imagine outra possibilidade. Você decide experimentar uma nova plataforma e, dentro de regras de privacidade e consentimento, consegue transportar parte da sua identidade e manter conexões com pessoas que também escolheram participar daquele novo ambiente.

A mudança poderia ser parecida com trocar de celular. O aparelho muda, mas seus contatos continuam com você. Talvez essa seja a grande reflexão por trás da interoperabilidade e daquilo que podemos imaginar como uma “cidadania digital”.

As plataformas provavelmente continuarão mudando. Novas redes vão nascer. Outras vão desaparecer. A pergunta é se, no futuro, continuaremos sendo obrigados a reconstruir nossa vida digital toda vez que isso acontecer. Ou se finalmente teremos algo parecido com um passaporte.

Um jeito de mudar de plataforma sem precisar deixar para trás quem somos e as relações que construímos.

Essa semana ficamos por aqui e nos vemos semana que vem. Valeu!

Saiba mais sobre Moisés Béio Cardoso

“Sempre fui apaixonado pelas temáticas que envolviam a comunicação: vídeos, fotos, revistas, e eventos.”, diz Moisés Béio Cardoso, doutor em comunicação e linguagens. Ele nasceu em Blumenau no ano de 1977 e se destacou na área de comunicação e tecnologia.   

Atualmente, ele é consultor de comunicação digital e palestrante. Além disso, atua como investidor e Trader na B3.

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