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Até pouco tempo atrás, quando alguém queria conhecer melhor um candidato antes de votar, o caminho mais comum era abrir o Google e começar uma peregrinação pela internet. O eleitor pesquisava o nome, encontrava entrevistas, notícias, propostas, críticas, biografias e opiniões. Depois precisava juntar tudo para tentar formar a própria conclusão.
Agora existe um caminho muito mais simples, perguntar diretamente para uma inteligência artificial:
“Quem é esse candidato?”
“Quais são as propostas dele?”
“Quais são os pontos positivos e negativos?”
“Qual candidato é melhor para a economia?”
A resposta chega em poucos segundos, organizada, escrita em linguagem simples e com aparência de análise pronta. É justamente essa praticidade que merece nossa atenção quando estamos falando de uma eleição.
Porque existe uma diferença importante entre usar a inteligência artificial para pesquisar um candidato e pedir para ela ajudar a decidir em quem votar. Fique com a gente e boa leitura.
Da pesquisa no Google para a conversa com a IA
O Google transformou a maneira como procuramos informação porque deixou de ser necessário conhecer o endereço de um site. Bastava fazer uma pergunta e receber uma lista de resultados.
A inteligência artificial generativa mudou novamente essa lógica. Em vez de entregar apenas uma lista de páginas, ela pode ler, organizar e apresentar uma resposta diretamente para o usuário.
Isso parece apenas uma evolução da ferramenta de pesquisa, mas existe uma diferença fundamental. No buscador, você recebe várias portas para entrar na informação. Na inteligência artificial, você recebe uma resposta já organizada.
Imagine dois eleitores tentando descobrir quem é determinado candidato. Um passa meia hora navegando por diferentes fontes. O outro pergunta para uma IA e recebe, em segundos, um resumo com trajetória, propostas, críticas e realizações.
O segundo ganhou tempo. Mas também entregou à ferramenta uma parte do trabalho de selecionar e organizar aquilo que vai conhecer. E é aqui que começa a discussão.
Qual é a pergunta certa para fazer?
Se você perguntar para uma IA “Em quem eu devo votar?”, está colocando a ferramenta em uma posição que ela não deveria ocupar. O mesmo vale para perguntas como “Qual é o melhor candidato?” ou “Qual candidato seria melhor para o Brasil?”.
Essas perguntas não pedem apenas informação. Elas pedem julgamento. Uma maneira mais interessante de utilizar a tecnologia é pedir que ela ajude você a entender e comparar informações, deixando a decisão para você. Por exemplo, você pode copiar e colar este comando:
“Quero conhecer melhor os candidatos à Presidência. Apresente de forma objetiva as principais propostas de cada candidato para economia, saúde, educação e segurança. Para cada informação, indique a fonte original e a data da informação. Diferencie claramente fatos, propostas e opiniões. Não recomende nem classifique os candidatos e não diga em quem devo votar. Meu objetivo é apenas entender as propostas para fazer minha própria avaliação. Quando não tiver certeza sobre alguma informação, deixe isso claro.”
A diferença parece pequena, mas é enorme. Em vez de perguntar “quem é melhor?”, você está pedindo “me ajude a entender para que eu possa decidir”.
Quando pesquisar começa a virar terceirização do julgamento
Aqui existe uma questão que vai além da tecnologia. Quando usamos uma IA para decidir em quem votar, estamos pesquisando ou estamos terceirizando parte do nosso julgamento político para um algoritmo?
Uma inteligência artificial pode apresentar informações verdadeiras e, ainda assim, fazer escolhas sobre aquilo que aparece na resposta. Ela precisa selecionar o que considera relevante, organizar os argumentos e decidir quais informações apresentar primeiro.
Não significa necessariamente que exista uma intenção política por trás disso. Significa que o eleitor não está recebendo a realidade diretamente. Está recebendo uma interpretação organizada por uma ferramenta digital.
É parecido com pedir para outra pessoa pesquisar um candidato e depois perguntar: “O que você descobriu?”. Você não está mais consultando diretamente todas as fontes. Está recebendo a curadoria que aquela pessoa fez.
Com a IA, essa intermediação acontece em uma escala muito maior e de maneira quase instantânea. Por isso, talvez a questão mais importante não seja apenas saber se a inteligência artificial pode errar. É entender quanto do nosso próprio processo de julgamento estamos dispostos a entregar para ela.
As IAs já apresentaram respostas eleitorais problemáticas
Em agosto de 2026, reportagens repercutiram um levantamento que testou diferentes sistemas de inteligência artificial com perguntas relacionadas às eleições brasileiras. A pesquisa, realizada pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro em parceria com o Ministério Público Federal, analisou respostas de ferramentas como ChatGPT, Gemini, Meta AI, Grok, DeepSeek, Perplexity e Claude.
O resultado chamou atenção: em 90% das respostas analisadas, as ferramentas classificaram ou hierarquizaram candidatos, comportamento incompatível com a regra estabelecida pelo Tribunal Superior Eleitoral para sistemas de IA. O levantamento também encontrou informações factualmente incorretas em 16% das respostas.
É importante fazer uma ressalva: isso representa o comportamento observado no período em que o estudo foi realizado, entre 2 e 6 de julho de 2026. Não significa que todas essas ferramentas continuem respondendo da mesma maneira hoje. No caso do ChatGPT, por exemplo, houve posteriormente reconhecimento de respostas inadequadas e orientação para que determinados resultados fossem desconsiderados.
O episódio, portanto, não serve para dizer que “a IA escolhe candidatos”. Ele serve para mostrar algo mais simples: mesmo quando existem regras para impedir esse tipo de comportamento, sistemas de inteligência artificial podem apresentar respostas que ultrapassam aquilo que deveriam fazer. E isso nos leva ao papel da Justiça Eleitoral.
O que o TSE determinou sobre inteligência artificial?
O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras específicas para o uso de inteligência artificial nas eleições de 2026. A Resolução nº 23.755, aprovada em março, atualizou as normas de propaganda eleitoral e incluiu regras relacionadas ao uso de IA.
O TSE também estabeleceu medidas para combater conteúdos falsos ou manipulados, incluindo regras para identificação de determinados conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial e restrições ao uso de deepfakes.
Entre essas regras está justamente a preocupação com sistemas de IA que possam ranquear, recomendar ou sugerir candidatos.
Isso é importante porque mostra que a questão não envolve apenas o que candidatos e eleitores publicam nas redes sociais. A própria ferramenta utilizada para responder às perguntas do eleitor também passou a fazer parte da discussão sobre integridade eleitoral.
O TSE, inclusive, criou uma comissão permanente para acompanhar iniciativas relacionadas ao uso de inteligência artificial e ao combate à desinformação nas eleições.
Então não devemos usar IA para pesquisar candidatos?
A inteligência artificial pode ser uma ferramenta extremamente útil para o eleitor. Ela pode pegar uma proposta de governo escrita em linguagem técnica e explicar de maneira simples. Pode comparar duas propostas, encontrar diferenças entre documentos e ajudar o cidadão a identificar quais informações precisam ser verificadas.
O problema começa quando a ferramenta deixa de ser “assistente de pesquisa” e passa a ocupar o lugar de “árbitro da decisão”. Em vez de perguntar “Em quem eu devo votar?”, podemos perguntar “Quais são as propostas desses candidatos sobre determinado assunto?”.
Em vez de “Qual candidato é melhor?”, podemos perguntar “Quais são as diferenças entre as propostas apresentadas por esses candidatos?”. E, principalmente, podemos pedir “Mostre a fonte original para que eu possa verificar.”. Essa última parte é fundamental.
A IA pode ajudar a encontrar o caminho. Mas, quando o assunto é uma decisão tão importante quanto o voto, vale a pena caminhar até a fonte original antes de chegar a uma conclusão.
A tecnologia pode pesquisar. O voto continua sendo nosso
A inteligência artificial está mudando a maneira como buscamos informação. Primeiro, deixamos de procurar endereços de sites e passamos a fazer perguntas ao Google. Agora começamos a fazer perguntas diretamente para máquinas capazes de organizar e interpretar grandes volumes de informação.
Isso pode tornar o eleitor mais informado. Mas também pode criar uma tentação: a de transformar uma ferramenta de pesquisa em uma espécie de consultor pessoal que pensa por nós.
E talvez essa seja a pergunta que deveríamos fazer antes de perguntar à IA em quem votar: eu quero que a máquina me ajude a entender a escolha ou quero que ela escolha por mim?
Porque a tecnologia pode organizar a informação. Mas a decisão sobre quem vai receber o nosso voto ainda deveria continuar sendo nossa.
Essa semana ficamos por aqui e nos vemos semana que vem. Valeu!
Saiba mais sobre Moisés Béio Cardoso

“Sempre fui apaixonado pelas temáticas que envolviam a comunicação: vídeos, fotos, revistas, e eventos.”, diz Moisés Béio Cardoso, doutor em comunicação e linguagens. Ele nasceu em Blumenau no ano de 1977 e se destacou na área de comunicação e tecnologia.
Atualmente, ele é consultor de comunicação digital e palestrante. Além disso, atua como investidor e Trader na B3.
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