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Talvez você tenha visto nos últimos dias imagens de pessoas transformadas pela inteligência artificial em versões de outras épocas, personagens, brinquedos, desenhos ou situações que nunca aconteceram.
A brincadeira muda rapidamente, mas o comportamento é sempre parecido: alguém descobre uma possibilidade, publica o resultado, outras pessoas experimentam e, em pouco tempo, aquilo está espalhado pelas redes sociais.
A pergunta interessante não é qual será a próxima trend. É outra: por que estamos transformando essas experiências com inteligência artificial em hábito? Fique com a gente e boa leitura.
Quando a IA deixa de ser novidade
Nos últimos meses, vimos uma sequência de tendências envolvendo imagens geradas por IA. Tivemos a febre das imagens no estilo Studio Ghibli, pessoas transformadas em bonecos e action figures, retratos com estética retrô, imagens criadas a partir de selfies e diversas outras experiências que rapidamente saíram das ferramentas de IA e chegaram às redes sociais.
O mais interessante é que quase ninguém precisa mais entender como a tecnologia funciona para participar. A pessoa simplesmente pensa: “vou pedir para a IA fazer isso”. É uma mudança importante.
A inteligência artificial deixa de ser percebida como uma tecnologia complicada, utilizada por profissionais ou empresas, e começa a funcionar como uma ferramenta cotidiana de entretenimento e expressão pessoal. A própria Meta, por exemplo, vem incorporando recursos de geração de imagens diretamente ao Instagram e ao WhatsApp, inclusive com dezenas de efeitos de IA para os Stories. E existe uma razão para prestar atenção nesse movimento.
Da brincadeira para o hábito
Toda tecnologia precisa ser incorporada ao cotidiano para se tornar realmente popular. No começo, existe a novidade. Depois vem a curiosidade. Em seguida, a diversão. Algumas experiências viram tendência. E aquilo que parecia extraordinário começa a fazer parte da rotina.
Podemos pensar em uma sequência bastante simples: estranho → curioso → divertido → tendência → hábito → normal. É praticamente uma pequena “Janela de Overton” tecnológica, que eu expliquei nesse artigo ( https://portalbnu.com.br/colunas/tecnologia-colunas/quando-deixamos-de-nos-importar-se-um-video-e-verdadeiro/). O que ontem parecia exagerado pode amanhã parecer completamente banal.
Imagine a diferença entre dizer “vou utilizar inteligência artificial para gerar uma imagem” e simplesmente dizer “vou fazer uma imagem”. Na segunda frase, a tecnologia praticamente desapareceu. É justamente aí que uma ferramenta começa a se transformar em comportamento.
Mas por que isso importa?
Aqui vale aplicar uma ideia bastante conhecida: a “Navalha de Ockham”. Ela não significa que a explicação mais simples seja necessariamente verdadeira. Significa que, diante de várias possibilidades, devemos começar pela explicação mais simples que consiga dar conta do fenômeno.
Então podemos fazer uma pergunta simples: se a indústria está investindo bilhões de dólares em chips, servidores, data centers e infraestrutura para inteligência artificial, não seria importante que essa tecnologia encontrasse cada vez mais usos no cotidiano?
Isso não significa afirmar que cada trend de IA foi criada deliberadamente para aumentar o uso da tecnologia. Não temos evidências para dizer isso.
Mas existe uma lógica econômica bastante clara: quanto mais pessoas incorporam uma tecnologia às suas atividades, maior tende a ser a demanda por ela. E a escala importa.
A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que o consumo de eletricidade dos data centers no mundo pode chegar a cerca de 945 TWh em 2030, aproximadamente o dobro do registrado em 2024. A entidade também aponta que o crescimento é impulsionado, entre outros fatores, pela expansão da inteligência artificial.
Ou seja, por trás de uma experiência que parece apenas uma brincadeira existe uma infraestrutura física gigantesca. Esse ponto ainda vai render conteúdo para outro artigo, mas hoje vamos nos ater a uma parte dessa mecânica, seguimos adiante.
Uma história antiga com uma lógica parecida
Lembrei de um exemplo curioso que ajuda a entender esse mecanismo. Quando a Michelin lançou seu famoso guia, em 1900, ele não era um guia gastronômico como conhecemos hoje. A publicação tinha mapas, informações para motoristas, locais para abastecer, consertar o carro, comer e dormir.
O objetivo era incentivar as pessoas a viajar de automóvel. E havia uma consequência bastante interessante para uma empresa fabricante de pneus: quanto mais as pessoas viajassem, maior seria o uso de carros e, consequentemente, a necessidade de pneus.
A própria Michelin conta essa história em seu site oficial. O exemplo não prova que as empresas de inteligência artificial estejam fazendo exatamente a mesma coisa. A comparação serve para mostrar outro princípio: estimular o uso de uma atividade pode ajudar a transformar essa atividade em mercado.
E talvez seja isso que esteja acontecendo, de maneira muito mais ampla, com a inteligência artificial.
O que existe por trás de uma imagem?
Quando você gera uma imagem por IA, é fácil enxergar apenas o resultado que aparece na tela. Mas existe uma cadeia inteira funcionando por trás dele. Chips processam os dados. Servidores executam os modelos. Data centers precisam de energia e sistemas de refrigeração. Redes que transportam as informações.
Uma única imagem não muda o mundo. O que muda a escala é quando milhões de pessoas passam a gerar milhões de imagens, vídeos e outros conteúdos todos os dias.
A própria IEA (Agência Internacional de Energia) destaca justamente esse equilíbrio: a eficiência energética por tarefa de IA vem melhorando rapidamente, mas o aumento da quantidade e da complexidade dos usos pode elevar novamente a demanda total.
Aplicações como geração de vídeo e outras tarefas mais intensivas podem consumir muito mais energia do que uma simples consulta de texto. Isso não transforma quem participa de uma trend em vilão.
A questão é outra. Quando uma brincadeira se transforma em hábito, ela também ajuda a definir quais tecnologias passam a fazer parte da nossa vida.
Alfabetização digital é mais do que evitar golpes
Durante muito tempo, quando falamos em educação ou alfabetização digital, pensamos principalmente em identificar fake news, evitar golpes, proteger senhas e não entregar nossos dados para qualquer pessoa.
Tudo isso continua sendo fundamental. Mas talvez esteja surgindo uma nova camada dessa alfabetização: entender o que estamos ajudando a normalizar.
Não precisamos abandonar toda novidade tecnológica, muito menos sentir culpa por participar de uma trend. Mas podemos olhar para essas tendências com um pouco mais de distância e questionar:
Por que isso viralizou?
O que essa ferramenta está tornando mais fácil?
Que comportamento ela está estimulando?
E o que acontece quando milhões de pessoas começam a fazer a mesma coisa?
Essas perguntas são importantes porque a tecnologia não muda apenas quando uma empresa lança uma nova ferramenta. Ela muda também quando nós incorporamos essa ferramenta aos nossos hábitos.
No fim, talvez a próxima grande transformação da inteligência artificial não aconteça quando surgir uma tecnologia revolucionária. Talvez aconteça quando ela deixar de parecer uma revolução. Quando simplesmente virar parte da nossa rotina.
Essa semana ficamos por aqui e nos vemos semana que vem. Valeu!
Saiba mais sobre Moisés Béio Cardoso

“Sempre fui apaixonado pelas temáticas que envolviam a comunicação: vídeos, fotos, revistas, e eventos.”, diz Moisés Béio Cardoso, doutor em comunicação e linguagens. Ele nasceu em Blumenau no ano de 1977 e se destacou na área de comunicação e tecnologia.
Atualmente, ele é consultor de comunicação digital e palestrante. Além disso, atua como investidor e Trader na B3.
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