Confira a nova coluna do doutor em Comunicação e Linguagens, Moisés Béio Cardoso
Cyberbullying: compartilhar também é participar da violência
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O caso dos estudantes que usaram IA para criar “nudes” falsos em uma escola de Blumenau precisa de um olhar mais aprofundado. A violência digital é real e tem consequências profundas. A internet deixou de ser terra de ninguém há muito tempo, e o que acontece no ambiente online tem impacto direto na vida das pessoas.
Uma imagem adulterada por inteligência artificial pode ter o mesmo efeito de uma agressão pública. A diferença é que, no digital, essa agressão se multiplica. Em poucos minutos, centenas ou até milhares de pessoas podem ser impactadas por aquele conteúdo.
E o pior: esse tipo de material não desaparece. Alguém sempre salva, arquiva, compartilha novamente. O que foi criado hoje pode voltar meses ou anos depois, reacendendo a dor da vítima.
A pauta de hoje é delicada, mas necessária. Fique com a gente e boa leitura!
A internet não é anônima como muitos pensam

Ainda existe a ideia de que, no ambiente digital, é possível agir sem consequências. Isso não é verdade.
Toda ação na internet deixa rastros. Endereços de IP, registros de acesso, dados de dispositivos e plataformas permitem identificar quem criou ou compartilhou determinado conteúdo. O “anonimato” muitas vezes existe apenas na percepção de quem pratica a violência.
Esse ponto é importante porque desmonta uma das principais falsas seguranças de quem participa desse tipo de prática.
A inteligência artificial industrializou o bullying
O bullying sempre existiu, mas a tecnologia mudou completamente sua escala.
Antes, para criar uma montagem convincente, era necessário conhecimento técnico, tempo e ferramentas específicas. Hoje, com o avanço da inteligência artificial, qualquer pessoa consegue gerar imagens falsas realistas em poucos minutos.
Isso trouxe quatro elementos perigosos:
Na prática, a inteligência artificial transformou o bullying em algo mais rápido, mais acessível e muito mais difícil de controlar.
Não existe espectador neutro

Um dos maiores equívocos quando falamos de violência digital é a ideia de que apenas quem cria o conteúdo é responsável. Não é.
Cada pessoa que compartilha, encaminha ou reage a esse tipo de material contribui para ampliar o dano. O conteúdo ganha alcance, se espalha e atinge mais pessoas. Para a vítima, isso significa reviver a violência repetidas vezes.
Muitos acreditam que, por não terem criado, estão isentos de responsabilidade. Mas no ambiente digital isso não se sustenta. Compartilhar também é participar.
O que diz a lei sobre compartilhar conteúdo ofensivo?
A legislação brasileira já prevê responsabilização para quem participa desse tipo de prática, inclusive quem apenas compartilha.
Dependendo do caso, a conduta pode se enquadrar em crimes como difamação ou injúria, previstos no Código Penal, quando há ofensa à reputação ou à dignidade de alguém.
Se envolver a exposição de imagens sem autorização, especialmente de crianças e adolescentes, entra também a proteção do Estatuto da Criança e do Adolescente, que resguarda a integridade e a imagem de menores.
A Lei 13.185 de 2015, conhecida como Lei do Bullying, reconhece o cyberbullying como uma forma de violência que deve ser combatida.
Além disso, quando há conteúdo íntimo ou sexualizado, a situação se torna ainda mais grave, podendo se enquadrar no artigo 218-C do Código Penal, que trata da divulgação de conteúdo íntimo sem consentimento.
É importante destacar que, no caso de menores de idade, os responsáveis legais também podem ser chamados a responder. Ou seja, não se trata apenas de uma questão moral. É uma questão legal.
Uma violência que não termina

Diferente de uma agressão no mundo físico, que acontece em um momento específico, a violência digital pode se repetir indefinidamente.
Uma imagem compartilhada hoje pode voltar a circular no futuro. A vítima não tem controle sobre isso. Cada novo compartilhamento é como uma nova agressão.
Esse efeito prolongado torna o cyberbullying ainda mais cruel.
Jovens com tecnologia avançada e pouca orientação
Hoje, crianças e adolescentes têm acesso a ferramentas extremamente poderosas. São aplicativos, redes sociais e agora também inteligência artificial.
Mas esse acesso não veio acompanhado, na mesma velocidade, de educação digital.
Fala-se pouco sobre limites, responsabilidade e consequências no ambiente online. O resultado é uma geração com “superpoderes tecnológicos”, mas sem o preparo necessário para lidar com eles.
A lógica das redes favorece a exposição

Outro ponto importante é o funcionamento das próprias plataformas.
Conteúdos que chocam, expõem ou geram reação costumam receber mais curtidas, comentários e compartilhamentos. Isso aumenta o alcance e cria uma espécie de recompensa para quem publica esse tipo de material.
Essa lógica incentiva comportamentos extremos e cria um ambiente favorável à humilhação pública.
Educação digital precisa ser prioridade
Hoje, tanto a escola quanto a família ainda atuam muito mais na reação do que na prevenção. O problema é que, no ambiente digital, quando a reação chega, o dano já aconteceu.
A educação digital precisa ser contínua. É fundamental que crianças e adolescentes entendam que compartilhar uma montagem, uma ofensa ou uma exposição pode ser crime, com consequências reais.
Também é importante que escolas busquem apoio técnico. Instituições como a SaferNet Brasil atuam justamente na promoção da cidadania digital e no combate à violência online.
A tecnologia não vai voltar atrás

A tecnologia não vai regredir. A inteligência artificial continuará evoluindo e se tornando cada vez mais acessível.
O que precisa evoluir é o comportamento da sociedade. Isso envolve famílias, escolas, plataformas e também os próprios usuários.
No ambiente digital, cada clique tem consequência. E quando se trata de violência, é importante lembrar: compartilhar também é escolher participar.
Entenda mais sobre o assunto assistindo ao vídeo abaixo:
Saiba mais sobre Moisés Béio Cardoso

“Sempre fui apaixonado pelas temáticas que envolviam a comunicação: vídeos, fotos, revistas, e eventos.”, diz Moisés Béio Cardoso, doutor em comunicação e linguagens. Ele nasceu em Blumenau no ano de 1977 e se destacou na área de comunicação e tecnologia.
Atualmente, ele é consultor de comunicação digital e palestrante. Além disso, atua como investidor e Trader na B3.
Confira a nova coluna do doutor em Comunicação e Linguagens,
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