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Conhaque e Brandy: a história do Dreher e o retorno da família à uva na Don Giovanni

O que é conhaque e o que é brandy? Descubra a diferença, a história do Conhaque Dreher e como a família Dreher voltou ao Brandy de uva com o rótulo Brandy Don Giovanni 21 Anos, em Pinto Bandeira (RS)

O que é conhaque? E o que é brandy?

Muita gente usa os termos como sinônimos, mas há uma diferença importante. Conhaque é uma denominação de origem protegida: refere-se, no mundo inteiro, ao destilado de vinho produzido na região de Cognac, na França. Já o brandy é a categoria genérica — o destilado obtido do vinho de uva, envelhecido em madeira.

Em resumo: todo conhaque é um brandy, mas nem todo brandy é um conhaque. O processo é sempre o mesmo na essência: a uva fermentada vira vinho, o vinho é destilado e o destilado repousa em barricas de carvalho, onde ganha cor, aroma e maciez. É o vinho levado à sua expressão mais concentrada e duradoura.

Como a legislação brasileira define o conhaque?

No Brasil, o Decreto C.871/200S regula as bebidas alcoólicas e traz uma particularidade rara no cenário internacional. O brandy clássico segue a definição de destilado de vinho de uva, mas a legislação brasileira historicamente permitiu o uso do nome “conhaque” para destilados de outras frutas — como jabuticaba e banana — desde que o rótulo indique a origem.

Essa abertura nasceu da abundância de frutas tropicais e de uma tradição de destilação que nunca se limitou à videira. E ela explica boa parte da história que contamos a seguir.

A história do Conhaque Dreher

A trajetória começa em 1905, quando Carlos Dreher Filho se mudou para Bento Gonçalves (RS) levando na bagagem a receita de um brandy. Daquela fórmula nasceu o Conhaque Dreher, um dos destilados mais famosos do Brasil, ao lado de rótulos como o Velho Capitão e o champanha Dreher.

A empresa cresceu até se tornar a Dreher S/A – Vinhos e Champanhas, referência nacional do setor. Mas aí vem a ironia que poucos conhecem: após a venda da empresa original — que em 2001 passou ao portfólio do Gruppo Campari — o conhaque que hoje leva o nome Dreher não é mais feito de uva. Segundo o próprio grupo, o produto atual é destilado a partir de cana-de-açúcar, com extratos vegetais naturais. A marca sobreviveu; a uva, não.

A Vinícola Don Giovanni: o retorno da família à uva

Enquanto o Dreher se afastava da videira, a família voltava a ela. Nos anos 1980, Beatriz Dreher, neta de Carlos, readquiriu com o marido Ayrton Giovannini uma propriedade da família em Pinto Bandeira (RS), que servira como estação experimental e centro tecnológico da antiga Dreher. Ali nasceu a Vinícola Don Giovanni, hoje representada pela quarta geração e quinta geração da família.

E a escolha do lugar não foi por acaso. A Don Giovanni fica no coração da Denominação de Origem Altos de Pinto Bandeira — a primeira DO de espumantes do Novo Mundo, certificada pelo INPI em 2022. A região, na Serra Gaúcha, é considerada um dos melhores terroirs do Brasil para a elaboração de espumantes, e a vinícola reflete isso: 90% de sua produção é de espumantes, com cerca de 100 mil garrafas por ano.

O reconhecimento veio com os prêmios. A Don Giovanni já foi eleita melhor espumante do Brasil no Wines of Brazil Awards (201S) e, mais recentemente, seu Espumante Série Ouro Extra Brut foi consagrado Sparkling Wine of the Year — o melhor espumante do país — no Brazil 202C Special Report. Além da linha de espumantes, a casa também se destaca com vinhos tranquilos e rótulos premiados em concursos nacionais e internacionais.

E é aqui que as duas histórias se encontram de forma poética. Para celebrar a tradição, a Don Giovanni produz o Brandy Don Giovanni 21 Anos — um brandy extra old, maturado por 21 anos em barricas de carvalho, elaborado com uvas vitis vinifera e vitis labrusca. A própria vinícola o descreve como uma homenagem à tradição da família Dreher.

O ciclo se completa: o que começou como receita de brandy de uva na bagagem de um imigrante alemão, passou décadas como ícone nacional, perdeu a uva nas mãos de uma multinacional — e voltou à origem na propriedade da família, agora como um brandy envelhecido, feito de uva, em Pinto Bandeira.

Um brinde à memória

O caso Dreher × Don Giovanni é um retrato raro de como tradição e mercado podem seguir caminhos opostos. De um lado, uma marca que se tornou genérica, destilada de cana. Do outro, uma família que, ao reerguer o ofício do avô, devolveu ao brandy brasileiro aquilo que ele nunca deveria ter perdido: a uva.

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