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Adoção de animais com deficiência ainda esbarra em preconceito e desinformação

Todos os detalhes estão na nova coluna do médico veterinário clínico e cirurgião, Dr. Carlos Sansão

Cães e gatos cegos, surdos, amputados ou com limitações de mobilidade seguem enfrentando mais dificuldade para encontrar um lar, mesmo sendo capazes de viver com qualidade, afeto e autonomia quando recebem os cuidados adequados

Adotar um pet já é, por si só, um gesto de responsabilidade e empatia, mas quando se trata de cães e gatos com deficiência, esse passo ainda costuma vir acompanhado de medo, insegurança e muitos mitos. O resultado é que milhares de animais acabam permanecendo por longos períodos em abrigos, à espera de uma chance que quase nunca chega.

Estimativas apontam que o Brasil tenha cerca de 4,8 milhões de animais em situação de vulnerabilidade. Dentro desse universo, uma parcela importante é formada por cães e gatos com algum tipo de deficiência ou necessidade especial — animais cegos, surdos, amputados, com sequelas neurológicas, dificuldade de locomoção ou que dependem de atenção contínua por conta de doenças crônicas.

Na prática, o que mais pesa contra eles ainda é o receio de quem pensa em adotar. Muita gente imagina que esses animais terão uma vida limitada, sofrida ou que exigirão cuidados impossíveis de manter no dia a dia. Mas a minha experiência clínica e a convivência com esses pacientes mostram justamente o contrário: com adaptação, acompanhamento veterinário e um ambiente seguro, eles podem viver muito bem.

Animais com deficiência se adaptam melhor do que muita gente imagina

Os cães, por exemplo, têm uma capacidade impressionante de adaptação. Um animal que perde a visão consegue memorizar os espaços onde vive, reconhece cheiros, identifica rotinas e continua se locomovendo com segurança quando o ambiente não sofre mudanças bruscas. Muitos seguem brincando, interagindo e demonstrando afeto da mesma forma de antes.

O mesmo vale para animais surdos, que aprendem a responder a estímulos visuais, gestos e à rotina da casa. Em muitos casos, eles passam a se comunicar com o tutor por sinais, expressão corporal e associação de movimentos. Já os animais amputados ou com limitações motoras frequentemente se readaptam com surpreendente rapidez, encontrando novas formas de andar, correr, brincar e se relacionar.

Hoje, inclusive, existem recursos que ajudam muito nesse processo. Cães com dificuldade de locomoção podem usar cadeirinhas adaptadas. Animais cegos podem contar com acessórios de proteção acoplados à coleira, que funcionam como uma espécie de barreira suave antes do focinho encostar em paredes, móveis ou obstáculos, ajudando no reconhecimento do ambiente. Tudo isso contribui para a autonomia e para a segurança do pet.

Importante destacar que não significa que não existam cuidados específicos. Eles existem sim e precisam ser encarados com responsabilidade.

É preciso deixar de enxergar a deficiência como uma sentença de sofrimento e entender que, com acolhimento e manejo correto, esses animais podem ter uma vida feliz e cheia de afeto.

Abrigos lotados

Enquanto isso não acontece, muitos desses cães e gatos seguem invisíveis dentro dos abrigos. O problema se agrava porque boa parte das instituições já opera acima da capacidade, tentando dar conta de um número crescente de animais abandonados, resgatados ou deixados por famílias que não quiseram mais assumir a responsabilidade pelos cuidados.

É nesse ponto que a discussão sobre adoção responsável se conecta diretamente com a realidade das entidades protetoras. Muitos abrigos sobrevivem com extrema dificuldade, dependendo de doações para manter alimentação, medicamentos, tratamentos e estrutura mínima para os animais acolhidos.

Casos como o do Sítio Dona Lúcia, em Blumenau, ajudam a ilustrar essa situação. O local abriga dezenas de animais e, como tantas outras iniciativas de proteção, depende da mobilização da comunidade para continuar funcionando. Quando a ajuda não vem, a conta não deixa de existir. Os animais seguem precisando comer, ser medicados, ter abrigo e cuidados diários.

Falar sobre adoção de animais com deficiência também é falar sobre empatia, compromisso e mudança de mentalidade. Esses cães e gatos não precisam de pena. Precisam de oportunidade, cuidado e de alguém disposto a enxergá-los para além da limitação física.

Tem dúvidas sobre a adoção de pets com deficiência ou tem curiosidade sobre outro assunto? Deixe seu comentário aqui no PortalBnu ou no meu instagram @vetcarlossansao.

Confira todos os detalhes no vídeo abaixo:

Saiba mais sobre o Dr. Carlos Sansão

Carlos Sansão, natural de Blumenau, desenvolveu um amor pelos animais desde a infância, proporcionado pelos pais. Esse vínculo se fortaleceu ao longo dos anos durante a experiência profissional de banho e tosa de pets, com uma posterior especialização nessa área. 

Hoje, ele atua como profissional liberal, faz atendimento médico veterinário em domicílio. Além disso, também desempenha voluntariado em projetos de resgates de animais em situação de maus-tratos e vulnerabilidade.

Como colunista do Portal da Cidade Blumenau, o objetivo é falar da medicina veterinária de uma forma mais próxima das pessoas. Toda semana, as colunas trarão novidades e tirarão dúvidas, dedicando o espaço para assuntos que importam à comunidade, principalmente para aqueles que amam os animais e têm os seus pets de companhia.

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