Especialistas ouvidos pelo Portal Bnu alertam que agressões digitais não devem ser encaradas como “brincadeira de criança”
Especialistas ouvidos pelo Portal Bnu alertam que agressões digitais não devem ser encaradas como “brincadeira de criança”

O avanço da tecnologia e a popularização da inteligência artificial têm dado uma nova dimensão ao cyberbullying entre crianças e adolescentes, um fenômeno que cresce diariamente, e com impactos profundos e duradouros. Imagens falsas, montagens humilhantes e conteúdos manipulados circulam com velocidade cada vez maior nas redes sociais e grupos privados, ampliando o alcance da violência e dificultando o controle sobre os danos.
“É preciso romper com a ideia de que um ataque virtual é apenas uma simples brincadeira de crianças”, afirma Moisés Béio Cardoso, doutor em comunicação e linguagens e consultor de comunicação digital. “A imagem adulterada por IA tem o mesmo efeito de uma agressão pública, só que multiplicada por centenas de pessoas impactadas por ela”.
Um dos aspectos mais preocupantes do cyberbullying é a permanência do conteúdo. Ao contrário de uma ofensa verbal dita em um corredor de escola, por exemplo, o material compartilhado na internet pode ser armazenado, distribuído e ressurgir meses ou anos depois, mantendo a vítima em eterno estado de vulnerabilidade.
“A IA industrializou o bullying”
A inteligência artificial mudou completamente a dinâmica das agressões virtuais. Se antes era necessário conhecimento técnico, tempo e ferramentas mais complexas para criar uma montagem ou espalhar um conteúdo manipulado, hoje isso pode ser feito em poucos minutos, por qualquer pessoa com acesso a aplicativos e plataformas digitais. “Essa facilidade de criação e compartilhamento cria um ‘suposto’ anonimato, que só existe na cabeça do criminoso, porque no digital tudo deixa rastro”, lembra Moisés.
Essa percepção reforça um ponto central do debate: a falsa sensação de impunidade. Para muitos adolescentes, o ambiente digital ainda é visto como um espaço sem consequências reais. No entanto, rastros digitais, registros e mecanismos de investigação tornam possível identificar autores e participantes.
Crimes cometidos em Blumenau
O Delegado da Criança, Adolescente e Mulher (Dpcami) em Blumenau, Juliano Tumitan, afirma que, até o momento, foram registrados três casos de cyberbullying em Blumenau. Dois deles, durante a semana passada. “Todos os casos envolvendo autores menores de idade”, afirma. O delegado destaca a importância do papel das instituições de ensino envolvidas nestes casos, pois elas orientaram aos pais das vítimas a importância de registrar um boletim de ocorrência. “Com base nesse registro, a Polícia Civil faz a instauração dos procedimentos. É importante, também, que os pais acompanhem a rotina dos filhos, saibam com quem seus filhos estão se relacionando, e que eduquem sobre o comportamento digital. Mensagens, fotos e comentários deixam rastro na internet e, com isso, é possível a Polícia Civil, a Polícia Judiciária monitorar e chegar aos autores destes crimes”, finaliza.

Traumas para uma vida inteira
O uso excessivo de redes sociais traz impactos preocupantes para crianças e adolescentes. É fundamental orientar os jovens do uso consciente. “Este é um tema que tem aparecido com uma frequência cada vez maior no consultório. Eu recebo muitos jovens com quadro de ansiedade severa e isolamento social. Quando vamos aprofundar o assunto, a raiz está em conflitos e exposições que começaram e se intensificaram nas redes sociais”, afirma a psicóloga e especialista em terapia cognitivo-comportamental Denilma Ferreira. Boa parte dos seus pacientes são crianças e adolescentes. A psicóloga explica que o trauma gerado por cyberbullying é muito mais profundo do que o físico, na “vida real”. “Ele é implacável, acontece 24horas por dia, se estende da tela do celular para a tela do computador, portanto, não há nem o refúgio do lar destes jovens para um acolhimento”, explica. O padrão de reação geralmente envolve a queda drástica na autoestima, insônia, falta de apetite e a hipervigilância – quando o jovem fica o tempo todo com o celular na mão. “O sentimento é de que o mundo inteiro está vendo aquela agressão. Isso gera uma vergonha paralisante e imensa insegurança”, completa.
Para acolher vítimas de cyberbullying, é importante que família e escola atuem em conjunto. “A família deve ser um porto seguro e oferecer escuta, compreensão e apoio prático no dia a dia. Sem julgamentos, mostrando para aquele jovem que o que aconteceu não define quem ele é”, explica a psicóloga. Já a escola deve agir com rapidez e firmeza. “Estar preparada com protocolos claros de intervenção, como a escuta qualificada, registro do ocorrido com a família e acompanhamento contínuo. Promover a conscientização entre os alunos, com rodas de conversas e orientação sobre segurança online.
O mais importante é este jovem entender que não está sozinho. “É possível ressignificar estes sentimentos, fortalecendo a autoestima e desenvolvendo novas formas de lidar com a situação, por isso a imensa importância de um acompanhamento profissional a este jovem”, finaliza.
Como denunciar
Casos de cyberbullyng pode ser comunicados ao Conselho Tutelar, ao Ministério Público ou à delegacia de polícia quando houver agressão moral ou física.
É importante gravar todas as mensagens e imagens ofensivas recebidas e bloquear os contatos. A vítima ou responsável legal deve fazer um boletim de ocorrência com as provas – mensagens, fotos, e-mail, n° celular da origem das agressões, endereço das páginas, perfis e publicações – para que se iniciem as investigações.
Escola, família e testemunhas são corresponsáveis e podem ser responsabilizadas por omissão caso negligenciem os sinais e as consequências do cyberbullying.
A Lei 14.811/2024 altera o código penal para tipificar casos de bullying e cyberbullying como crimes. O autor da violência pode ser punido com multa ou com dois a quatro anos de prisão, se o crime for praticado por meio da internet.
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A internet em geral PRECISA ser regulamentada. Redes sociais não deveriam ser permitidas para crianças e adolescentes.
As plataformas tb precisam ser responsabilizadas e sobretudo, a autorização de imagem e voz deveria ser obrigatoria no uso de IAs generativas.